• Fábio da Silva

O ESCRITOR - Ele tem o destino em suas mãos



I - SEGUNDA-FEIRA


Na escuridão da noite, uma moça de branco, com longos cabelos claros e pele alva, corria desesperadamente, chorando, por uma rua deserta. Entrou num beco sem saída; ali, forçou as maçanetas das portas, sem sucesso. Enquanto experimentava a última, olhava para a entrada e via, surgindo da penumbra, um homem de preto. Como estava escuro, só era possível identificar sua silhueta: alto e magro. Ele entrou.

Apavorada, a jovem colou as costas na parede, ao final do beco. Calmamente, o Homem de Preto caminhou em direção à Moça de Branco, que estava encurralada. Então, ela implorou:

- Por favor, não me machuque! Não me machuque!

Lentamente, abaixou-se, chorando. O perseguidor aproximou-se e, com o punhal na mão, serenamente, disse:

- Não se preocupe, criança. Vamos brincar.

De repente, o silêncio da noite foi interrompido por um grito de mulher que ecoou, rasgando a escuridão. O grito foi-se e, com ele, a noite. E, naquele momento, era o som de um pássaro cantando que regia o alvorecer de um novo dia na Avenida Rio Branco e adjacências, na cidade do Rio de Janeiro de 1929, então capital da República.


A citada via, inaugurada em 15 de novembro de 1905, inicialmente com o nome de Central, foi a primeira avenida construída no Rio de Janeiro. Com quase dois quilômetros de extensão, mais de 30 metros de largura, calçadas de sete metros (confeccionadas em pedra portuguesa), possuía, entre as duas pistas, um refúgio para pedestres. E fora construída à moda dos boulevards parisienses. Era arborizada, iluminada, pavimentada, cheia de canteirinhos e candelabros.

As fachadas das suas edificações apresentam colunas, frisos, figuras alegóricas, guirlandas e outros detalhes que lhes conferem grande beleza arquitetônica. Começava na Prainha (atualmente Praça Mauá) e terminava na Praia de Santa Luzia (onde hoje está o Obelisco). Dividia-se em três partes; a primeira foi ocupada por empresas ligadas ao comércio de exportação e importação, em virtude da sua proximidade com a Zona Portuária. A segunda parte encerrava o comércio, como por exemplo: os bancos, os jornais, os magazines, as confeitarias e as lojas de roupas. A última, onde se encontra a Praça Floriano (região que ficaria popularmente conhecida por Cinelândia), é composta por inúmeros edifícios no entorno da referida praça, tais como: a Escola Nacional de Belas-Artes (atual Museu Nacional de Belas-Artes), a Biblioteca Nacional, o Palácio Monroe (já demolido), o edifício Wolfgang Amadeus Mozart (vulgo Amarelinho), a Câmara Municipal do Rio de Janeiro (Palácio Pedro Ernesto) e o Teatro Municipal. Com a morte do Barão do Rio Branco, em 10 de fevereiro de 1912, passou a chamar-se Avenida Rio Branco, em sua homenagem. Essa via é o principal palco dos acontecimentos dos dias seguintes...



II - TERÇA-FEIRA


Na sala da casa, notava-se que a mobília era simples. Num canto, havia uma pequena estante repleta de livros. Na cozinha, existiam louças por lavar.

Lá fora, alguém batia à porta. Carlos de Assis era um jovem homem branco, de 26 anos de idade, alto e magro, com cabelos castanho-escuros. Levantou-se da cama preguiçosamente, saiu do quarto e foi atender à porta da sala, arrastando-se. Abriu-a para o seu amigo Waldir Medeiros. Este era um jovem homem moreno claro, também de 26 anos de idade e de mesmo tipo físico que o seu.

- É você, Waldir?! Ainda é cedo.

- Já passou da hora, meu amigo.

Carlos olhou para o relógio de ponteiros na parede da sala: 07h30min.

- Perdi a hora de novo. – disse Carlos.

Então, deixou o amigo e seguiu para o banheiro; de lá, ouvia-se o som de água caindo da torneira. A seguir, foi para o quarto e trocou de roupa. Na sala, Waldir, calmamente, tirou o chapéu, sentou-se numa cadeira próxima à mesa e perguntou:

- Como anda o livro?

- Está indo. – respondeu ele, do quarto.

Em cima da mesa, o amigo viu uma garrafa de vinho pela metade, um copo sujo, algumas anotações, folhas em branco, uma caneta-tinteiro e alguns jornais.

- Afogar-se na bebida não é a solução, Carlos.

No quarto, ele terminava de abotoar a camisa e nada respondeu. Da sala, Waldir continuou:

- Esqueça-se dela, meu amigo.

- Que Deus me perdoe, Waldir, mas eu preferia vê-la morta!

Tinham uma relação de amizade muito forte, que começara já na infância. Possuíam muitas afinidades. Mas existia uma diferença marcante entre os dois. Carlos não era um jovem dos mais entusiastas. Ainda criança, perdera os pais e o irmão mais velho num terrível acidente e, para completar sua tragédia, foi traído por Antônia, sua ex-noiva. Quanto a Waldir, este era, psicologicamente, o antônimo do amigo. Dir-se-ia que era o entusiasmo em pessoa. Sempre alegre e sorridente, encarava a vida com muito bom humor.

Finalmente, Carlos entrou na sala.

- Cuidado com o que deseja, meu amigo, pois pode conseguir.- advertiu Waldir.

- Não é um pouco cedo pra sermões?!

Waldir sorriu. Carlos retribuiu, colocou o chapéu e disse:

- Estou pronto!

E o amigo completou animado:

- É assim que se fala! Nada como um dia após o outro. Vamos curar essa ressaca!

Waldir e Carlos saíram. E este fechou a porta atrás de si. Eles cumprimentaram Dona Catarina, uma senhora simpática já de certa idade que varria a calçada do outro lado da rua, cuja principal atividade era tomar conta da vizinhança e, para tal, adotava a estratégia de ficar horas e horas varrendo a frente de sua casa. Os amigos caminharam por uma típica rua do Rio de Janeiro, de onde era possível ver o Aqueduto da Carioca, ou, se preferir, os Arcos da Lapa, por onde passam os bondes. A seguir, após a passagem de uma carroça e de um automóvel, atravessaram a rua e compraram um exemplar do “Jornal do Brasil”.

Os dois prosseguiram a caminhada. Cumprimentaram duas belas jovens que viram no sentido oposto. Então, seguiram pela Avenida Rio Branco; o movimento de automóveis e pedestres já era intenso àquela hora. Lá, entraram na Padaria Aurora e tomaram um cafezinho, enquanto conversavam. Carlos olhou para o relógio de pulso.

- Estamos atrasados.

Ambos deixaram a padaria e caminharam, aceleradamente, pela avenida, rumo à Biblioteca Nacional. Lá chegando, Carlos e Waldir subiram, apressados, a escadaria externa da biblioteca e alcançaram o saguão de entrada; foram recebidos pelo senhor Gumercindo Rabelo, um alto funcionário da biblioteca e pai de Maria Clara. Tratava-se de um homem forte, de cabelos grisalhos, com idade permeando os 50 anos. Ele disse exaltado, com o dedo em riste:

- Isso são horas, vocês dois?!

- Desculpe, senhor Gumercindo. Não vai acontecer de novo. – respondeu Carlos.

- Desculpe, chefe. – disse Waldir.

- Chefe?! Por acaso eu tenho cara de índio, ô Waldir?! – e colocando as mãos na cintura - Já é a segunda vez esta semana; fiquem sabendo vocês dois! – fez outra observação - E olha que a semana só está começando! A sorte é que vocês trabalham bem e são bons rapazes – por fim, ordenou – Agora, vocês dois, mãos à obra!

Antes de partirem, Gumercindo tomou o jornal das mãos de Waldir, concluindo:

- Agora, podem ir!

Sem guardar uma distância segura, o amigo sussurrou para Carlos:

- A sorte é que a filha dele gosta de você.

- Eu ouvi isso! – completou Gumercindo.

Então, os amigos seguiram correndo para a escadaria interna. Subiram o primeiro lance, alcançando o patamar em que estava o busto em mármore de D. João VI. Depois, pegaram o lance da esquerda e, a seguir, o último lance, chegando ao terceiro andar.


O escritório era uma típica repartição pública carioca do final da década de 20. Lá, Carlos e Waldir, cada qual em sua mesa, em lados opostos da sala, realizavam suas tarefas. Gumercindo, em sua mesa, ao fundo, de costas para a janela, lia, em voz alta, o exemplar do “Jornal do Brasil” que tomara de Waldir:

- “Mais uma mulher é morta nas proximidades da Avenida Rio Branco. Segundo relatos do Delegado Ernesto Paranhos, a jovem de 22 anos, encontrada em um beco sem saída, foi morta com uma estocada no abdômen. Já é a segunda morte em duas semanas.” – a seguir, comentou - Que mundo é este?!

- Num beco sem saída?! Mas a que horas foi isso?! – perguntou Carlos.

O chefe respondeu:

- Diz aqui que, possivelmente, entre 22 e zero hora de ontem.

- Que importância tem as horas, Carlos? – indagou Waldir.

- Nada. Só curiosidade.


Como era hora do almoço, os amigos caminhavam pela Avenida Rio Branco. Viram Antônia Gonzaga; era uma jovem e bela morena, de estatura mediana, de longos cabelos negros, de 24 anos de idade. Estava acompanhada de Fernando, um jovem alto e magro, de 28 anos. O casal caminhava na calçada do lado oposto da avenida. Ela acompanhava-o, segurando-o pelo braço. Ao ver aquela cena, Carlos estacou. Waldir caminhou mais alguns metros, até perceber que o amigo ficara para trás. Então, volveu e caminhou na direção de Carlos.

- Como ela pôde fazer isso comigo?! – lamentou Carlos.

- Meu amigo, você merece uma mulher melhor que a Antônia.

- Me trocou por aquele Fernando! E eu nem desconfiei dela.

- Ela não passa de uma interesseira.

Sim; Antônia era uma interesseira. Traíra Carlos faltando poucos meses para o casamento. Também pudera, Fernando, irresistível e cortejador, era o filho mais velho de uma abastada e tradicional família carioca. Ao contrário de Carlos, um humilde funcionário público, sem muitas pretensões e aspirante a escritor. E ela não perderia a oportunidade por nada. Waldir tentou animá-lo:

- Não deixe que isso acabe com o seu dia.

Carlos meneou a cabeça positivamente. Então, Waldir completou:

- Agora vamos!


Em um modesto estabelecimento de nome Café Carioca, situado na avenida, no qual garçons iam e vinham, atendendo às mesas, os amigos conversavam, enquanto terminavam o almoço. Após colocar o último garfo de comida na boca, Waldir, batendo com ambas as mãos na barriga, perguntou:

- Sabe qual é a parte chata de terminar o almoço?

- Qual? – indagou Carlos.

- Perde-se a fome.

Olharam um para o outro e riram. Depois, cumprimentaram os dois policiais que entraram e sentaram-se a uma mesa próxima. A seguir, Waldir disse:

- Até que você está bem pra quem bebeu meia garrafa de vinho.

- Não exagera. Foi só um terço; só um terço.

Antes que pudesse tecer qualquer outro comentário, Waldir olhou para a entrada do restaurante e anunciou:

- E, agora, a sua felicidade estará completa, meu amigo.

Carlos volveu o olhar na mesma direção para ver a jovem Maria Clara Rabelo, filha de Gumercindo, entrando no estabelecimento e caminhando em direção a eles. Maria era uma moça pequena, de 20 anos, pele alva, com longos cabelos claros e olhos cor de mel. Waldir não se conteve:

- Com o devido respeito, meu amigo, ela é simplesmente encantadora!

E Carlos, enfeitiçado, concordou:

- Eu sei.

A moça continuou caminhando naquela direção. Waldir levantou-se da mesa, deu um tapinha no ombro do amigo e opinou:

- Dê uma chance a ela, dê uma chance a você. – e completou, lembrando - Ah! Hoje você paga a conta.

Cumprimentou a moça e seguiu rumo à saída. Ela aproximou-se e disse:

- Olá, Carlos!

Era um tímido na lida com as pessoas, principalmente com as mulheres. Em especial, com aquela jovem de frágil aparência, rostinho angelical e uma voz terna, mas de grande força interior, que representava o objeto de seu desejo, e que atendia pelo nome de Maria Clara. De certa forma, possuía uma influência sobre ele, algo que o intimidava e, ao mesmo tempo, atraía-o, fascinava-o. Quando ela estava perto, ele queria-a distante; e, quando ela distanciava-se, ele desejava-a mais perto. Esse sentimento dúbio enlouquecia-o. O fato era que o medo de contrair um novo relacionamento somado ao fato de aquela jovem ser a filha do seu chefe apavorava-o. Então, desconcertado, ele cumprimentou-a:

- Olá, Maria Clara!

A moça ficou de pé, parada em frente à mesa.

- Onde está o seu cavalheirismo?

Rapidamente, Carlos levantou e puxou uma das cadeiras para Maria Clara. Ela sentou-se. Ele imitou a ação a seguir e perguntou:

- Posso lhe oferecer algo?

E a jovem, sem hesitar, respondeu:

- Seu coração.

O rapaz respirou fundo e desviou o olhar de sua direção.

- Olha pra mim, Carlos.

Prontamente, voltou o olhar para a moça, que perguntou:

- Por que não foi assistir ao meu ensaio, ontem à tarde?

- Não estava me sentindo muito bem. Fui direto pra casa. Desculpe-me.

- Tudo bem. Quando a gente ama, a gente perdoa tudo. – disse ela, compreensiva.

- Maria Clara, eu...

Ela interrompeu-o:

- Sei que quer me amar também. Só que o seu coração ainda tem medo.

- Meu coração demora pra se curar.

A jovem, reclinando-se sobre a mesa, completou:

- Não sou como Antônia. Jamais vou decepcioná-lo. Sempre o esperei. – e acrescentou - Estou me guardando pra você; está ouvindo?

O rapaz olhou para mesa; depois, voltou a olhar para ela.

- Eu ainda não estou pronto. Não quero a magoar, nem me magoar novamente. – pausou e continuou - Talvez fosse melhor você me esquecer, Maria.

Acenou ao garçom. A jovem insistiu:

- Acha que é assim? Acha que posso mandar e desmandar no meu coração, Carlos?

Ansiosa por uma resposta, Maria observava-o; contudo, ele nada disse. Por fim, o garçom aproximou-se. Pagou a conta e, antes de partir, falou:

- Só não quero que crie falsas esperanças.

Carlos levantou-se e seguiu rumo à saída, deixando a bela e doce Maria Clara ali, sozinha, sentada à mesa, com os olhos marejados.


À medida que anoitecia, na Avenida Rio Branco e adjacências, todo o som da cidade dava lugar ao solitário som de um cachorro latindo. Na sala de sua casa, Carlos sentou-se à mesa em que estavam suas anotações e folhas em branco. Pegou a caneta-tinteiro e começou a escrever ao mesmo tempo em que narrava:

- “São por volta das 21 horas. No bairro da Lapa, um casal está sentado à mesa de um bar. A mulher, já balzaquiana, mas de beleza ainda invejável, está trajando um vestido vermelho. O homem, um pouco mais jovem, está de terno preto. Parecem bastante íntimos. Então, ele faz o convite. Ela aceita. E, juntos, deixam o estabelecimento. Ela está bastante entusiasmada. Ele, com maldade nos olhos. Alguns minutos depois, caminham pelos arredores do Aqueduto da Carioca. Mais adiante, o casal adentra num modesto hotel. Pega a chave com o recepcionista e sobe as escadas...”



III - QUINTA-FEIRA


Duas noites, mais tarde, algumas pessoas estavam no estabelecimento de nome Recanto da Lapa; ao fundo, um cavaquinista tocava um choro. Dentre os clientes, havia uma mulher de vermelho e um homem de preto que conversavam sentados a uma mesa. Eles riam bastante. Pareciam íntimos. Instantes depois, levantaram-se e saíram. Seguiram por uma rua de onde era possível ver os Arcos da Lapa. Após alguns minutos de caminhada, o casal entrou no Hotel Flor-de-Lis. Aproximou-se do balcão, no qual se encontrava o recepcionista que entregou a chave ao homem. Então, ele e a mulher subiram as escadas, eufóricos. Entraram no quarto e começaram a se beijar e a se tocar. A seguir, o Homem de Preto começou a despir a Mulher de Vermelho, que tentava despi-lo também, mas era impedida por ele.

- Primeiro as damas. - disse.

Segurou-a pelo pescoço.

- Nunca fui dama. - respondeu.

Ele deu um bofetão em sua face. Ela sorriu. Depois, jogou-a violentamente na cama. A Mulher de Vermelho demonstrava grande prazer com a agressividade do Homem de Preto. Naquele momento, ela estava completamente nua na cama. E o Homem de Preto, de pé, colocara-se em frente a ela. Sacou o punhal de dentro do paletó. Ela não se intimidou, demonstrava ainda mais prazer levando uma das mãos à boca. A seguir, ele disse:

- Vamos brincar, criança.

Na recepção do Hotel Flor-de-Lis, o recepcionista estava sentado, lendo uma revista. Súbito, lá em cima, um grito de mulher ecoou. Assustou-se. Então, o recepcionista subiu correndo pelas escadas. Arrombou a porta do quarto e entrou. Viu a mulher nua e morta, deitada em seu próprio sangue. A cena embrulhou-lhe o estômago. Pôs a mão na boca, olhou para a janela aberta. Olhou novamente para o corpo na cama. Voltou à porta. Não se aguentava mais; vomitou.


Sem saber que o assassinato que escrevera duas noites antes se concretizou horas atrás, Carlos dormia em seu quarto. Sonhava com a noite e o fogo crepitante consumindo uma casa, de onde um jovem saía, carregando nos braços um menino. Subitamente, Carlos acordou.



IV - SEXTA-FEIRA


Sentados a uma mesa da Padaria Aurora, Carlos e Waldir tomavam o café da manhã. Enquanto o primeiro bebia o café, observando o movimento de pessoas e veículos, lá fora, na Avenida Rio Branco, o segundo lia o exemplar do “Jornal do Brasil” que acabara de comprar:

- “Mais uma mulher é morta no Centro do Rio de Janeiro. Desta vez, o assassinato foi no Hotel Flor-de-Lis, no bairro da Lapa. A julgar pelas circunstâncias, a polícia acredita que essa terceira morte seja só o começo.”

Carlos pousou a xícara de café sobre a mesa e disse:

- Ótimo assunto pra começar o dia, Waldir. Tanto pra se ler num jornal, e você insiste na seção policial! - recostou-se no espaldar da cadeira, e o amigo continuou - Ainda não terminou. Escute: “‘Segundo testemunhas, a mulher, que trajava um vestido vermelho, e o homem, que usava um terno preto, saíram de um bar, caminharam alguns metros e entraram no hotel’, disse o Delegado Paranhos. ‘Entreguei as chaves ao casal, eles subiram as escadas e depois de uns dez minutos, ouvi aquele grito horrível’, revelou o recepcionista, que não quis se identificar.”

Após a leitura, Carlos projetou seu corpo para frente e, apoiando os braços sobre a mesa, perguntou, intrigado:

- Num hotel?!

- É o que diz aqui.

- Você disse uma mulher de vermelho e um homem de preto?!

- Foi o que eu li.

- A que horas foi?

- Diz aqui que foi por volta das 21h30min.

- Eu estava escrevendo nessa hora.

- E o que que tem?

- Eu escrevi exatamente o que acabou de ler; só que há três dias, ou melhor, há duas noites.

- Que coincidência macabra, Carlos!

- Talvez não seja coincidência...


Em seu escritório, na delegacia, Delegado Ernesto Paranhos, pai de Teresa Cristina, de pé, postava-se em frente à janela. Era um homem alto, forte, com bigode, por volta dos 50 anos. Naquele momento, observava o movimento lá fora e fez um comentário:

- Sabe, Fonseca, em todos esses anos de polícia, eu nunca tinha visto tais atrocidades. E o pior é que me sinto com as mãos atadas!

Fonseca estava sentado numa cadeira em frente à mesa do Delegado. Era um homem magro, de estatura mediana, por volta dos 30 anos.

- Pelo menos, nós temos a descrição dele, chefe. – e acrescentou - Já é a terceira morte. Agora, imagine só quantas outras teremos daqui pra frente!

Delegado Paranhos deu as costas à janela e caminhou até a sua mesa, na qual se sentou.

- Não quero nem pensar, Fonseca. Só espero que consigamos pegar esse monstro o quanto antes. Que Deus proteja as nossas mulheres!


Como era hora do intervalo, as crianças brincavam no pátio do Colégio Nossa Senhora da Conceição, sob os olhares atentos de Maria Clara e de sua amiga Teresa Cristina Paranhos, a filha do Delegado. Esta era uma jovem e bela morena, pequena, de 20 anos de idade. Eram amigas desde a infância. Maria seguira a profissão da mãe, Dona Francisca, que também fora professora; contudo, abandonara o magistério para dedicar-se ao casamento e à família. Por influência da amiga, Teresa acabou seguindo o magistério também. E de tão ligadas que eram, dir-se-ia que Maria e Teresa eram mais que irmãs. A diferença entre as duas residia no fato de que aquela era clara e esta, morena. Ademais, Teresa não tinha a ousadia da amiga em seu temperamento; era tímida. O que não tirava em nada o seu encanto. Ambas adoravam as crianças, e o sentimento era mútuo. Sentiam-se realizadas com o que faziam. Então, andando lado a lado com a amiga, pelo pátio, Teresa indagou:

- Não vai dar uma escapulida pra ver o seu amor?

Antes que pudesse responder à pergunta da amiga, uma das crianças, Pedrinho, começou a subir numa árvore, desviando a atenção de Maria, ao que ela, docemente, mas firme, ordenou:

- Pedrinho, desça já daí, menino!

O garoto obedeceu.

A seguir, Maria comentou:

- Talvez ele seja um caso perdido. Ele não me deixa aproximar-me.

- Quem sabe deva mudar de tática... Talvez deva ser fria com ele. Mamãe diz que sempre funciona.

- Pode ser uma boa ideia. Ou, quem sabe, causar-lhe ciúmes.

Enquanto isso, Pedrinho tomava o pirulito das mãos de uma coleguinha, Aninha, no que ela começou a chorar.

- Tia Maria, o Pedrinho pegou o meu pirulito!

Teresa Cristina aproximou-se de Aninha e confortou-a. E Maria Clara chamou pelo menino:

- Venha já aqui, Pedrinho!

Com o pirulito na boca, o garoto veio correndo. Maria continuou:

- Olha pra Aninha, veja como ela está triste. Como é que se diz?

E Pedrinho, com cara de traquinas, confirmou:

- Desculpa.

A seguir, meteu a mão no bolso da bermuda, retirou algumas balas e ofereceu-as à menina.

- Tome! Pode ficar com todas.

Aninha aceitou as balas e sorriu. Então, Maria Clara, calmamente, ordenou:

- Agora vão já brincar!

E Teresa Cristina, mais uma vez, continua com as perguntas à amiga:

- E quanto ao amigo dele?

- O Waldir?

- Esse mesmo. – ela confirmou.

- Gosta dele, não é?

- Parece ser um bom homem. – e advertiu - Mas não diga que eu gosto dele!

- Pode ficar despreocupada, amiga.

Do lado de fora das grades que cercavam o colégio, Carlos e Waldir espreitavam por trás de uma das árvores da calçada, tencionando ver as duas.

- Ela é linda mesmo. – comentou Waldir.

- Quem?!

- A minha Teresa! – e acrescentou - Acho que você deveria ter com ela.

E Carlos, surpreso, perguntou:

- Com Teresa?!

- Não; com Maria.

- Você deveria se declarar pra ela.

E Waldir, também surpreso, indagou:

- Pra Maria?!

- Claro que não; pra Teresa.

- Ah, tá!

- Fui um pouco áspero com ela naquele dia, na hora do almoço. – disse Carlos.

- Com quem?! Com Teresa?!

- Com Maria.

De repente, as moças olharam para além das grades e viram os dois amigos espreitando atrás da árvore. Eles perceberam e esconderam-se por completo. Carlos comentou:

- Elas viram a gente.

- Não; não viram não. Fomos mais rápidos.

- Vê se elas estão olhando.

- Eu, não. Vê você.

Finalmente, a sineta do colégio tocou, indicando o término do intervelo, e as moças conduziram as crianças para as salas de aula. Do lado de fora das grades, atrás da árvore, os amigos esperaram um pouco. A seguir, Carlos olhou o seu relógio de pulso:

- Vamos, Waldir! A hora o almoço já vai acabar.

- O Gumercindo vai trovejar canivetes na gente.

Os dois atravessaram a rua, correndo, e quase foram atropelados por uma carroça. Mais à frente, um automóvel buzinou em cima deles. “Vocês querem morrer, seus loucos?!”, bradou o motorista. Desculparam-se e continuaram.


Chegaram à Biblioteca Nacional e foram direto ao escritório; Gumercindo estava de pé, com as mãos nas cadeiras, esperando pelos dois. Ele apontou o relógio de ponteiros na parede e disse:

- Os senhores estão dez minutos atrasados. Onde vocês estavam?

Sem hesitar, Waldir respondeu:

- Bem, eu fui ver a minha Teresa Cristina; e Carlos, Maria Clara.

Espantando, Carlos volveu o olhar para o amigo e, a seguir, para Gumercindo. O chefe, sério, perguntou:

- Carlos, foi ver mesmo a minha filha?

E, quase hesitante, Carlos respondeu:

- De certa forma, sim e não...

Waldir interveio:

- O que ele quer dizer é que passamos pelo colégio e demos um “olá” para as duas.

Mais uma vez, Carlos olhou espantado para o amigo. Gumercindo passou o braço por cima dos ombros do rapaz. E ambos caminharam lentamente pelo escritório. Ao que o pai de Maria revelou:

- Olha, Carlos, eu já sei que minha filha morre de amores por você. Isso é público e notório. Então, por que você não cria logo coragem e a convida para um passeio?

Surpreso, o jovem respondeu:

- Eu vou pensar sobre isso, senhor Gumercindo.

- E, Carlos... Eu não sou tão durão assim. É claro que tenho ciúme da minha princesa. Mas você é um bom rapaz, trabalhador.

Com cara de bobo, Carlos olhou para Waldir, no que este fez sinal de positivo com os polegares para cima. Gumercindo concluiu:

- Agora já pro trabalho, vocês dois!


Mais tarde, no escritório da biblioteca, o relógio de ponteiros na parede indicava 17h10min. Gumercindo, como de costume, cobrou os dez minutos de atraso por ocasião do horário do almoço. Então, dando-se por satisfeito, levantou-se de sua mesa, pegou sua pasta, pôs o chapéu e despediu-se:

- Carlos, Waldir, até amanhã!

Antes de partir, o pai de Maria voltou-se para Carlos:

- E, Carlos, pense no que falei.

Timidamente, o jovem respondeu:

- Sim, senhor. Até amanhã, senhor Gumercindo.

E Waldir, por sua vez, completou:

- Até amanhã, chefe.

Gumercindo saiu. Os amigos, cada qual em sua mesa, olharam um para o outro e sorriram.


Carlos e Waldir, este com um cavaquinho na mão, aquele segurando um jornal, desceram, apressados, pela escadaria externa da Biblioteca Nacional e seguiram pela Rio Branco até chegarem ao Bar do Joaquim. Ali, na calçada, encontraram Maneco ao violão, Aristides no pandeiro e Zé do Cavaquinho, com um cigarro na boca, e seu inseparável cavaquinho. Todos estavam sentados a uma mesa, ensaiando um choro. Waldir disse:

- Já começaram sem a gente, não é?

- Vocês são uns apressados! – comentou Carlos.

- Puxem uma cadeira e se acheguem. - convidou Maneco.

Aristides, por sua vez, completou:

- Traga mais dois copos, ô Seu Joaquim.

Joaquim era um português gordo e simpático, por volta dos 50 anos, careca, com grande bigode, lápis numa das orelhas e folha de louro na outra. Ele passava uma toalha no balcão, naquele momento, e disse:

- É pra já, Aristides.

Como de costume, os amigos reuniam-se sempre às sextas-feiras naquele bar. E era evidente que o português adorava, pois aqueles encontros aumentavam, e muito, a clientela. Waldir puxou uma cadeira e sentou-se em frente a Zé do Cavaquinho, tentando acompanhá-lo. Carlos sentou-se perto de Maneco, que perguntou:

- Como anda o livro, Carlos?

- Está indo de vento em popa.

Maneco acenou positivamente com a cabeça.

- Quando terminar, não se esqueça de autografar um pra mim.

- Pode deixar, Maneco.

Joaquim colocou mais dois copos de cerveja na mesa.

- Ô Zé do Cavaquinho, faça as honras! – pediu Maneco.

De repente, Zé, com o cigarro pendendo a um canto da boca e jeito de malandro, começou a dedilhar velozmente as cordas do seu cavaquinho, tocando um choro. Aristides, com seu pandeiro; Maneco ao violão; Waldir com seu cavaquinho e Carlos batucando na mesa acompanhavam-no. Algumas das pessoas que transitavam pela Avenida Rio Branco, retornando do trabalho, pararam para assistirem à apresentação. Ao final, todas, dentro e fora do bar, aplaudiram. Então, alguém pediu:

- Mais uma vez.

Outro disse:

- Muito bom! Muito bom!

E um terceiro exclamou:

- Bis! Bis!

Então, Zé do Cavaquinho começou a dedilhar outro choro. E os demais o acompanharam. Exceto Carlos que seguia, com os olhos, Maria Clara caminhando pela calçada do outro lado da avenida, acompanhada da amiga Teresa Cristina. Ele levantou-se de sua cadeira, deixou a roda de choro, atravessou a rua e, na outra calçada, abordou-as. Fez o cumprimento:

- Olá, Maria Clara!

- Olá.- respondeu ela, friamente.

Carlos olhou para Teresa e cumprimentou-a também:

- Teresa Cristina!

E essa, mais cordial que a amiga, respondeu:

- Olá, Carlos!

A seguir, ele volveu o olhar para Maria:

- Eu precisava ter com você, Maria.

- Agora não posso. Não vê que estou ocupada?

- Com o quê?

E Maria, ainda mais fria, completou:

- Estou caminhando com Teresa, ora!

Puxou a amiga pelo braço e ambas partiram. Da sua cadeira, na calçada do bar, Waldir viu as amigas afastando-se de Carlos. Ele apontou para a cena, gesticulou e convocou os amigos. Então, Waldir, Maneco, Aristides e Zé do Cavaquinho atravessaram a avenida, passando por entre automóveis e pedestres até chegarem a outra calçada. Ali mesmo, cercaram Maria Clara e Teresa Cristina, mais adiante. A fim de dar um empurrãozinho ao flerte mal resolvido de Carlos, o grupo começou a tocar o choro “Carinhoso”, cantado na voz de Aristides. As duas moças sorriam, timidamente. Waldir, que dedilhava seu cavaquinho, trocou olhares com Teresa. E, enquanto Aristides continuava a cantar, acompanhado pelo grupo, Carlos aproximou-se e disse:

- Desculpe-me, Maria Clara. Sei que fui um pouco rude naquele dia, no Café Carioca.

Ela, erguendo as sobrancelhas, indagou:

- Um pouco?!

- Tudo bem; eu fui bastante rude.

- Pois bem, eu o desculpo, mas sob uma condição. – Maria completou.

- Pois, então, diga.

- Quero que seja mais que um amigo.

Ele hesitou por um instante. Aristide continuava a cantar, acompanhado pelo grupo. Por fim, Carlos decidiu-se:

- No momento, não posso ser mais do que isso.

Maria Clara respirou fundo.

- Muito bem! Vamos, Teresa Cristina!

Novamente, ela puxou a amiga pelo braço, e esta trocou um último olhar com Waldir. Por fim, as duas amigas deram as costas e partiram, seguindo pela avenida. Sem acreditar, Aristides comentou:

- O que que há, meu amigo?

- Eu não acredito! – Maneco também se manifestou.

Zé do Cavaquinho completou:

- O que deu em você, homem?!

Waldir, por sua vez, igualmente se manifestou:

- Estava tudo perfeito! Eu pensei que você iria aceitar.

- Eu também.- disse Carlos.

Carlos ficou olhando sua adorada Maria Clara, acompanhada da amiga, distanciar-se em meio à multidão da Avenida Rio Branco.


Já era noite. Carlos entrou na sala de sua casa, colocou o paletó no espaldar da cadeira, jogou o jornal do dia em cima da mesa, junto das edições anteriores e de suas anotações; foi à cozinha e pegou um copo d’água. Enquanto bebia, ele retornava à sala. Sentou-se à mesa, pousou o copo e, como de costume, abriu um dos periódicos antigos e começou a folheá-lo calmamente. Passou pela economia, pela política, pelo esporte... Na página seguinte, leu a manchete:

- “Prostituta é morta nas escadarias do Palácio Tiradentes”.

Fez um comentário: “Hum! Seção policial, só desgraça!” Por alguns instantes, ficou pensativo. Então, largou o jornal, pegou suas anotações e começou a ler algumas páginas. A seguir, ele parou e pensou, novamente, por alguns instantes. Depois, pegou outro periódico e leu: “Mais uma mulher é morta nas proximidades da Avenida Rio Branco. Segundo relatos do Delegado Ernesto Paranhos, a jovem de 22 anos, encontrada em um beco sem saída, foi morta com uma estocada no abdômen. Já é a segunda morte em duas semanas.”

Depois, pegou um terceiro. “Mais uma mulher é morta no Centro do Rio de Janeiro. Desta vez, o assassinato foi no Hotel Flor-de-Lis, no bairro da Lapa. A julgar pelas circunstâncias, a polícia acredita que essa terceira morte seja só o começo.”

Então, retornou às suas anotações. Deu uma olhada minuciosa nas páginas. Demorou alguns instantes. Depois, pegou o copo e, sofregamente, bebeu toda a água. Passou uma das mãos na boca. Recostou-se no espaldar da cadeira.

- Meu Deus, é coincidência demais! – e concluiu – Não; três mortes não são coincidências.




V - SEGUNDA-FEIRA


O final de semana passou sem que os amigos tivessem contato, reencontrando-se apenas na manhã de segunda-feira. Como já passava de meio-dia, Carlos e Waldir almoçaram sentados a uma mesa, no Café Carioca, ao que o segundo comentou:

- Não acredito que você deixou aquela oportunidade de sexta-feira escapar! Estava tudo perfeito... Era só dizer “sim” pra ela.

Carlos, distante, olhava a Avenida Rio Branco através da janela, sem ligar importância para o que dizia o amigo. Waldir insistiu:

- Carlos, estou falando com você. O que está acontecendo? Você está estranho desde cedo, meu amigo. Quer falar alguma coisa?

Carlos voltou o olhar para o amigo e reclinou-se sobre a mesa.

- Sabe, na noite de sexta passada, eu dei uma olhada na seção policial daqueles jornais.

- Você lendo a seção policial?! – espantou-se Waldir.

- Pois é! Falavam dessas moças que foram mortas.

- Por isso se chama seção policial, Carlos! – e perguntou - O que que tem?

- Elas foram mortas exatamente da mesma maneira que eu escrevi. – explicou ele.

- Lá vem você com essa história novamente! Você está me assustando, Carlos.

O escritor tirou do bolso do paletó algumas anotações.

- Leia.

Waldir passou uma olhada nas folhas.

- Mas por quê...

- Continue! Vamos! Leia tudo; leia! – tornou a dizer Carlos.

O amigo voltou às folhas, passou uma olhada rápida e finalmente terminou. Levantou a cabeça e olhou para Carlos.

- Por que fica transcrevendo os assassinatos dessas mulheres? Pensei que estivesse escrevendo um livro.

- E estou...

Hesitou após a entrada de dois policiais, que se sentavam a uma mesa próxima. Então, com muita cautela, reclinou-se ainda mais sobre a mesa. E continuou:

- Eu escrevi essas mortes, dias antes de acontecerem, Waldir.

- Você está de gozação comigo, Carlos! – falou ele, incrédulo.

Mais uma vez, o escritor tirou do bolso do paletó algumas anotações e entregou ao amigo.

- Agora leia estas.

Waldir, novamente, deu uma rápida passada nas anotações.

- Essa aqui é invenção sua.

- Invenção ou previsão? – e completou - E veja a data. Vai acontecer hoje à noite.

O amigo meneou cabeça negativamente, sorrindo sem graça.

- Espera aí, espera aí! Você quer que eu acredite que você consegue prever esses assassinatos?!

- Waldir, as anotações dizem as mesmas coisas dos jornais: a mesma morte, o mesmo local, o mesmo dia, a mesma hora. Até as vítimas são as mesmas! A única diferença é que escrevi isso, dias antes de acontecer.

Mais uma vez, o amigo balançou a cabeça negativamente.

- Isso é loucura!

- Se não acredita em mim, venha comigo esta noite e, juntos, talvez possamos impedir o próximo assassinato. – Carlos convidou.


Era noite. Na sala da casa, havia tiras de pano no chão. Na mesa, viam-se moldes de papel e peças por terminar. Num canto, estava a máquina de costura. A costureira era uma mulher gorda, por volta do 50 anos de idade, fita métrica no pescoço, lápis numa das orelhas e usava óculos. Havia terminado de amarrar um embrulho em cima da mesa.

- Toma, minha filha. Leve já isso pra Dona Catarina.

Sua filha era uma bela e jovem mulher; usava um vestido verde. Tinha, mais ou menos, 20 anos. Imediatamente pegou o pacote.

- É pra já, mamãe. Esquente a sopa que volto em vinte minutos.

A Mulher de Verde saiu de casa.


No alto, fica o Convento de Santo Antônio. Embaixo, está o Largo da Carioca, onde poucas pessoas transitam. Numa esquina próxima, estavam parados Carlos e Waldir; e este fez um comentário:

- Isso é loucura! Não vai acontecer nada. Vamos embora.

A seguir, os amigos viram a Mulher de Verde surgindo no Largo da Carioca, tendo um embrulho nas mãos. Carlos indagou:

- Acredita em mim, agora?

Waldir acenou positivamente com a cabeça. E o escritor lançou um convite:

- Vamos!

Começaram a segui-la a uma distância segura, tencionando não serem vistos e, ao mesmo tempo, não perderem-na de vista. A jovem, desconfiada, timidamente, olhava pra trás e acelerava os passos até chegar à Rua Uruguaiana. Ainda ali, os dois continuavam a segui-la, guardando certa distância. Adiante, a Mulher de Verde dobrou à esquerda, saindo da Uruguaiana. Os amigos aceleraram os passos e imitaram-lhe o gesto, dobrando à esquerda também. Naquele momento, a moça entrou à direita e continuou, em passo acelerado. Alguns passos depois, a fim de verificar se despistara seus perseguidores, ela volveu o olhar para trás, vendo, então, a silhueta do Homem de Preto tendo o punhal na mão e caminhando lentamente. Aterrorizada, a Mulher de Verde começou a correr, deixando o embrulho cair. O assassino acelerou os passos e pôs-se a correr no encalço da jovem. Passou a ponta do punhal na parede, provocando faíscas. Carlos e Waldir entraram numa transversal, correndo. Viram o embrulho no chão e continuaram. Subitamente, um grito de mulher ecoou, rasgando aquelas ruas. Então, o escritor e o amigo correram em direção ao grito. Alguns metros adiante, entraram numa segunda transversal e avistaram o corpo da Mulher de Verde em sangue. Waldir, apavorado, gritou:

- Oh, Mãe de Deus!

Carlos abaixou-se e verificou o pulso da moça.

- Está morta!

Os dois perceberam o vulto do Homem de Preto mais à frente. Carlos levantou-se. O assassino pôs-se a correr; e os amigos começaram a perseguição, por entre as ruas e vielas. Alcançaram a Sete de Setembro. Percorreram a mesma, até chegarem à Praça Tiradentes. Ali, perderam-no de vista. Ouviram apenas o som de uma gargalhada aterradora, capaz de arrepiar todos os pelos do corpo.



VI - TERÇA-FEIRA


Era dia. No escritório da Biblioteca Nacional, Carlos, pusilânime, estava sentado à sua mesa, mexendo em alguns papéis. Waldir aproximou-se. Deixou alguns documentos na mesa dele e tentou animá-lo:

- Não fique assim, meu amigo. Vamos impedir o próximo assassinato.

- Por que não diz isso pra família daquela moça? – sugeriu ele, frustrado.

- Calma, Carlos! Ficar lamentando não vai adiantar.

- Desculpe-me, Waldir. – mostrou-se arrependido.

- Está tudo bem.

E uma hipótese passava por sua cabeça.

- E, se a próxima vítima for a minha Maria ou, então, a sua Teresa?!

- Vira essa boca pra lá, homem! Nós vamos conseguir da próxima vez.

Carlos meneou a cabeça positivamente. Então, Waldir continuou:

- Se eu não o conhecesse, diria que você é o assassino.

- É, realmente, você sabe animar um amigo. - ironizou o escritor.

- Desculpe. É que aquelas anotações podem incriminá-lo, Carlos. Imagine se o Delegado Paranhos pegar aquilo! Vai ser um prato cheio pra ele.

- Eu sei. Mas não tem como ele descobrir.

O amigo puxou uma cadeira; sentou-se e, intrigado, fez uma pergunta:

- Agora me diga: como você consegue escrever exatamente o que acontece?

- Não faço a mínima ideia.

E Waldir continuou sua fala, querendo engrandecer a situação, tornar tudo aquilo um ato heroico, quem sabe até divino:

- Talvez seja por algum motivo nobre. Afinal, tudo nesta vida tem um propósito, não é o que dizem? – e acrescentou – E, se isso for um dom, uma dádiva, um presente de Deus? E se, escrevendo, você puder mudar o rumo da História?

Carlos, ainda pusilânime, questionou:

- Será?! Não conseguimos nem impedir a morte daquela moça, Waldir!

O amigo, sempre positivo, respondeu:

- Ora, homem, não desanime! Você já conseguiu me convencer. Não pode desistir agora. – mostrou-se, mais uma vez, positivo.

- Aquela pobre moça morreu, e não pudemos fazer nada.

- Nós demos azar, quando a perdemos de vista.

- Como alguém pode fazer aquilo com uma jovem tão linda?!

E Waldir, racional, respondeu:

- Agora temos de nos concentrar na próxima vítima. Você já sabe onde e quando vai acontecer?

- Ainda não escrevi nada sobre isso.

- Está esperando o que para escrever? O próximo assassinato?!

O escritor, já se animando, perguntou:

- Você confia em mim?

- É claro!

E, novamente, Carlos fez um convite:

- Por que não vai lá pra casa hoje à noite? Talvez eu consiga escrever algo.

Waldir deu um leve murro na mesa.

- É assim que se fala, homem!


Era noite. Na sala de casa, Carlos e o amigo estavam sentados à mesa, frente a frente. Waldir, ansioso, perguntou:

- Como é que é? Não vai escrever?

Carlos, que estava com a caneta-tinteiro numa das mãos e as folhas de papel em branco repousando sobre a mesa, respondeu:

- Calma, meu amigo. Fique quieto, que já vai começar.

Fechou os olhos, respirou fundo, abriu os olhos e começou a escrever, ao mesmo tempo em que narrava. O amigo, surpreso, observava atentamente os relatos do escritor.

- “É noite. E a Lua está cheia...”

Waldir, impaciente, perguntou:

- Que horas são?

O rapaz continuava escrevendo. O amigo insistiu:

- Que horas são, Carlos?

- “São 22h.” – e continuou a escrever - “A bela prostituta de pele morena, que trajava um vestido azul, fazia ponto em frente à praça...” – disse.

E Waldir interrompeu:

- Qual o nome da praça?

Carlos continuou. O amigo reclinou-se sobre a mesa e insistiu:

- Carlos?!

- “Praça Mauá” – e continuou escrevendo - “Um homem de preto, alto e magro, aproxima-se. A prostituta oferece os seus serviços e dá o seu preço. Ele aceita. Então, o Homem de Preto e a Prostituta de Azul vão para uma rua próxima...”

Mais uma vez, Waldir, indagou:

- Qual o nome da rua?

- Eu não sei... – e continuou, quando o amigo perguntou:

- Quando?!

O escritor permanecia na escrita. Waldir colocava-se quase em cima do rapaz.

- Quando, Carlos?!

Carlos parou de escrever e ergueu o olhar:

- Hoje!

Waldir olhou para o relógio de ponteiros na parede; indicava 21h 25min. Ele disse:

- Nós temos pouco mais de meia hora!

E o escritor:

- Precisamos correr. Vamos!

Os amigos pegaram, cada qual, o seu paletó e saíram, apressadamente.


Meia hora depois, escondidos numa esquina próxima à Praça Mauá, que fica na Zona Portuária da cidade, observavam uma prostituta de azul que, acompanhada de outras colegas, fazia ponto por ali. Carlos olhou o relógio de pulso e disse:

- Faltam cinco pras dez. Está quase na hora.

- Veja! – Waldir apontou.

O Homem de Preto surgiu na praça e, calmamente, aproximou-se da Prostituta de Azul. Ela, por sinal, era mais bela que as demais. Trocaram algumas palavras. Ele examinou o material. E, depois de alguns instantes, o casal caminhou abraçado por alguns metros, entrando numa rua. Toda a ação era acompanhada pelos olhares atentos do escritor e de seu amigo. E o primeiro convidou:

- Vamos!

Como era de se esperar, antes que os amigos pudessem chegar à rua em que entrara o casal, um grito de mulher ecoou. Então, correram para a tal rua; ali viram a Prostituta de Azul caída no chão, porém com vida, tendo uma das mãos em sangue. O assassino estava de pé, em frente à prostituta, com o punhal numa das mãos. Carlos vociferou:

- Ei, seu verme! Deixe a mulher em paz!

O Homem de Preto volveu o olhar na direção dele, sorriu e, depois, correu. O escritor foi atrás. Waldir aproximou-se da mulher.

- Você está bem?

- Tentei segurar a faca, e ele cortou a minha mão, mas estou bem. – respondeu ela.


Por uma rua deserta, Carlos perseguia o Homem de Preto. Este entrou numa transversal, aquele lhe imitou o movimento. De repente, o assassino seguiu por uma viela, e o escritor estava logo atrás. Então, o Homem de Preto entrou num beco. Carlos entrou a seguir. Parou e verificou que era um beco sem saída, pela existência de um grande muro no final. Sem entender, olhou para a entrada, olhou para o muro, olhou para o alto das edificações que compunham o beco. Onde estaria o assassino? Então, intrigado, falou de si para si: “Impossível! Ele não poderia ter pulado um muro tão alto”. Naquele momento, o Homem de preto surgiu atrás dele.

- Ficaria surpreso com o que posso fazer, escritor.

Carlos, assustado, voltou-se, rapidamente, na direção do assassino. Ao que este o arremessou contra a parede. O escritor tentava lutar, aplicando um soco contra o agressor, mas errou. O Homem de Preto desferiu um murro certeiro no estômago de Carlos, que caiu no chão. Ouviu-se o som de um cachorro latindo. A seguir, o assassino levantou o rapaz, colocou-o contra a parede e pôs o punhal no seu pescoço:

- Você me decepciona, escritor. Vejo que só é bom com a caneta-tinteiro.

Forçou o punhal contra o pescoço de Carlos, que sangrava um pouco.

- Ainda não é sua hora, escritor.

Por fim, o assassino deu um soco na face de Carlos e sumiu na escuridão, deixando apenas o som de uma gargalhada aterradora.


Na emergência do hospital, enquanto a enfermeira terminava de fazer um curativo na mão da Prostituta de Azul, que estava sentada em uma maca, Delegado Paranhos e Fonseca interrogavam a mesma. O delegado disse:

- Homem de preto, alto, magro, pele clara, cabelos escuros. Mais alguma coisa?

Fonseca, que tomava nota, perguntou:

- Mais algum detalhe?

A prostituta acrescentou:

- Seus olhos também eram escuros.

- No escuro, tudo fica escuro. – disse ele, debochando.

- Olha, já disse tudo do que me lembro, além do mais estava...

- Escuro? – interrompeu Fonseca.

Delegado Paranhos disse:

- Deixe a mulher em paz, ô Fonseca.

- Por que vocês da polícia ainda não prenderam esse monstro? – indagou a prostituta.

- Estamos tentando, moça. Estamos tentando... – olhou para o ajudante – É; bate com a descrição dos outros assassinatos, Fonseca! – depois, virou-se para a prostituta - Tem sorte de estar viva, moça.

- Sorte a minha aqueles dois estarem passando por lá. – reconheceu a vítima.


Na recepção do hospital, aguardavam, impacientemente, o retorno do Delegado Paranhos e de Fonseca. Quando os policiais, finalmente, chegaram, os dois amigos levantaram-se de onde estavam sentados e adiantaram-se em direção àqueles, ao que Waldir perguntou:

- Como está a mão dela?

- Ela vai sobreviver. – definiu o Delegado.

Carlos, dirigindo-se a Paranhos, indagou:

- Podemos ir agora?

- E vocês dois, o que, realmente, estavam fazendo uma hora daquelas na Praça Mauá? – perguntou Fonseca.

- Você quer deixar eu fazer as perguntas, ô Fonseca?! – reagiu o Delegado.

- Desculpe, chefe. – disse o homem, sem graça.

Paranhos, sem originalidade alguma, repetiu a pergunta do ajudante:

- E vocês dois, o que, realmente, estavam fazendo uma hora daquelas na Praça Mauá?

E o escritor respondeu:

- Estávamos refrescando as ideias, como já dissemos.

- Sei. Sei... – ele pausou, olhou nos olhos dos rapazes e finalizou - Bem, não tenho mais perguntas mesmo para os senhores. Podem ir. E não se preocupem com a imprensa; não citarei os nomes de vocês.

Despediram-se dos policiais. Viraram-se e seguiram rumo à saída, mas foram interrompidos por Paranhos que, não se dando por convencido, fez um comentário:

- A propósito, essa desculpa de que estavam refrescando as ideias é meio descabida. Já tive a idade de vocês. Já pensaram em arrumar uma namorada? Ficar gastando dinheiro com essas mulheres não é nada cristão... – e recomendou - Ah! E deem lembranças minhas ao Gumercindo.

Antes de atravessarem a porta de saída, Waldir comentou uma asneira:

- Lembranças à sua filha Teresa Cristina também, Delegado.

Com as mãos na cintura, Paranhos olhou sério para o rapaz. Waldir, sem graça, ao perceber que não era a melhor ocasião de mandar recomendações à filha do Delegado, virou-se rapidamente, puxando Carlos pelo braço. E ambos saíram apressados do hospital.


Mais tarde, em sua casa, o escritor entrou na cozinha. Pegou um copo d’água. Começou a beber, enquanto caminhava até a sala; pôs o copo sobre a mesa. Pegou as páginas que escrevera horas antes e começou a lê-las. À medida que passava a vista em suas anotações, seu semblante mudava para um misto de curiosidade e espanto. Então, puxou a cadeira, sentou-se à mesa e continuou. Ao terminar o último parágrafo, Carlos ficou pensativo. A seguir, incrédulo com o que acabara de ler, falou para si mesmo: “Eu não acredito! Não pode ser...”



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