• Fábio da Silva

NADA É POR ACASO



Sentados à mesa de uma lanchonete, Rogério e Carla conversam em frente à janela. Discutem detalhes do casamento. Ele é um jovem branco e alto; ela, uma bela morena, de estatura mediana. A noiva pergunta: - Amor, já acertou o valor com o fotógrafo? - Só depois que você me disser o que acha do trabalho dele, querida. – diz o rapaz. Rogério entrega um envelope pardo à Carla. - Deixa eu ver, amor. - Umas fotos interessantes. Você vai gostar. A morena abre o envelope, começa a passar as fotos uma a uma, surpresa, incrédula, com o que acaba de ver. - Meu Deus! Isso não pode tá acontecendo comigo! - É claro que pode. – responde serenamente. As fotos reveladoras mostram Carla e o amante saindo de um hotel, num carro, em plena luz do dia. Ela tenta se justificar: - Eu posso explicar, Rogério! - E pensar que briguei com minha melhor amiga por sua causa... Carla tenta segurar as mãos do noivo, mas ele evita-a. - Deixa eu explicar... - Explicar o quê, Carla? – mantendo-se calmo, completa - Ah, tá! Foi sua despedida de solteira; não é?! Enquanto fala, a moça gesticula, nervosamente, passando as mãos no cabelo. - Rogério, eu sei que errei com você. Fui uma fraca, mas me perdoe! Por favor! – implora. - Como você pôde fazer isso comigo?! - Me perdoe! – insiste. O rapaz balança a cabeça negativamente. Profere a sentença: - Não! A moça põe-se a chorar. Rogério levanta-se, tira a aliança da mão direita, pousa-a sobre a mesa e sai. Mais tarde, na rua, o trânsito está intenso. Ele corre pela calçada, tentando se esquivar dos pedestres. Olha o relógio de pulso, que indica 15h55min. Será que dá tempo? Finalmente, no corredor de um edifício, Rogério, ofegante, toca a campainha de um apartamento, insistentemente. A porta é aberta por uma pequena e bela jovem branca, de cabelos compridos. Chamava-se Ana Flávia. - O que você quer, Rogério? - Primeiramente, lhe pedir desculpas. - Só isso? Então, tchau. – sumariamente ela diz. - Não; espere! Tem mais! Ana Flávia tenta fechar a porta, mas é impedida por Rogério, que se coloca entre ela e o batente. - Você tá me machucando, Ana. Deixe eu entrar. A moça força a porta contra o corpo do rapaz. - Eu não quero falar com você. Vá embora, Rogério! - Ana, se realmente não quisesse falar comigo, não teria atendido à porta, quando me viu pelo olho-mágico. A jovem larga a porta. Rogério entra e fecha-a. Vê algumas malas num canto da sala. A moça informa: - Olha, não tenho muito tempo. Meu táxi já deve tá chegando. Então, fale rápido, fale logo! - Não vá, Ana. Não faça essa viagem, por favor! – pede o rapaz. - Me dá um bom motivo pra não ir. - Eu terminei com ela. - O quê?! – diz ela, surpresa. - Eu terminei com ela. Olha, desculpe ter dito aquelas coisas. Você estava certa... Ela realmente tá tendo um caso. - explica. - Pera aí! Pera aí! – começa o sermão - Quem você pensa que eu sou?! Acha que pode vir aqui, me pedir desculpas, dizer que terminou seu noivado com aquelazinha, na véspera do seu casamento, e simplesmente querer que eu deixe de viajar pra ficar com você? - Bom, é que eu pensei que... A moça interrompe: - Você pensou?! Você pensa demais, seu idiota! – pausa e, já com uma voz doce, continua – Mas, desta vez, você pensou certo. Porque eu o amo! Rogério e Ana Flávia caminham um ao encontro do outro e beijam-se apaixonadamente. Seis meses depois... É noite. Na sala do apartamento, a TV, ligada num canal qualquer, ilumina o ambiente. As fotos espalhadas no chão esboçam a silhueta de um casal. Ana Flávia está sentada no sofá, por cima das próprias pernas, assistindo à TV. Passa, sensualmente, uma das mãos por entre os cabelos; depois, desvia o olhar para a janela. Com os olhos em lágrimas, olha a chuva que cai lá fora. Na cozinha de outro apartamento, ouve-se o som de gotas d’água saindo da torneira e caindo na pilha de louça suja, que está na pia. Vê-se um jovem, moreno claro, alto, de cabelos curtos, sentado à mesa; ele come um sanduíche e bebe um copo de suco, desanimado. Seu nome é Flávio. Lembra-se da discussão que teve semanas atrás com a ex-namorada. - Por que você sempre critica tudo?! - Porque eu sou assim mesmo! – dia a ex. - Você é uma pessoa muito difícil, sabia?! - Então, por que continua comigo?! – ela interroga. Com um olhar distante, o rapaz toma do suco e morde o sanduíche, o qual mastiga lentamente. Dias mais tarde... Observando as vitrinas das lojas do shopping center, Ana Flávia e Bianca conversam, caminhando lentamente. - Como você tá, amiga? Ana Flávia suspira: - Tô indo! Mas vou superar. - É assim que se fala, amiga! – tenta confortá-la - Não ligue, os homens são assim mesmo. Quando você menos espera, eles aprontam. E, quando menos esperar, vai aparecer um príncipe na sua vida. Ana Flávia lamenta: - Eu perdi aquela oportunidade no exterior por causa dele. Por que eu fui confiar no Rogério?! Bianca, sempre positiva, diz: - Olha, isso deve ter acontecido por algum motivo. Afinal, nada é por acaso. Subitamente, ouvem o som do celular dentro da bolsa de Bianca. Ela abre-a e atende. - Oi, amor! Tudo bem?! Ah, tô aqui no shopping, com a Aninha. Vem sim. Acho legal. Mas será que ele vem? Tomara. Tá bom; vamos ficar esperando. Te amo! Era quase término do expediente. No escritório da empresa, Gustavo despede-se ao celular: - Também a amo, meu amor! Tchau! Tchau! Ele desliga o aparelho, animado. Levanta-se de sua mesa, abre a porta e vai para o corredor, por onde caminha apressado. Em outro escritório, Flávio, com olheiras, em virtude das noites maldormidas, está sentado à mesa, relaxado. Olha fixamente para um pedaço de papel que tem nas mãos. De súbito, alguém bate à porta. Rapidamente, o rapaz dobra o papel e guarda-o no bolso da calça, ao mesmo tempo em que se ajeita na cadeira. - Quem é? – pergunta ele. Uma voz masculina responde: - Sou eu, meu amigo. - Entra, Gustavo. O rapaz entra, dizendo: - Cara, liguei pra Bianca. Ela tá lá no shopping com a amiga. É a sua chance de conhecê-la. - Hoje não vai dar. Deixe pra próxima. - Flávio, ela foi abandonada pelo namorado. O safado a deixou pra ficar com outra. Tá carente. Coisinha linda! - Pô, Gustavo, tô com umas papeladas pra botar na mesa do chefe, amanhã cedo. – ele inventa uma desculpa. O amigo senta-se numa cadeira em frente à mesa. Diz: - Cara, tu já tá nessa há um tempão. Tá na hora de sair com alguém. – pausa e pergunta - Quer conversar sobre isso? - Não, Gustavo; eu tô legal. Só quero dar mais um tempo. - Acho que você tá é perdendo tempo, Flávio - adverte. - As mulheres é que não gostam mais de poesia, Gustavo. - Algumas ainda gostam, meu amigo. Flávio completa, mostrando-se incrédulo: - Será? Gustavo levanta-se, aproxima-se do rapaz e dá-lhe um tapinha no ombro. E, antes de partir, diz: - Bom, eu vou indo. Se mudar de ideia, me ligue. Sem olhar para o amigo, Flávio acena positivamente com a cabeça. Gustavo sai. No quarto do apartamento, insone, movimenta-se de um lado a outro da cama. Senta-se, passa as mãos no rosto e olha o relógio digital, em cima do criado-mudo, indicando 02h39min. Então, acende o abajur e, debaixo do relógio, pega o pedaço de papel, para o qual fica olhando. Flávio levanta-se, com o papel na mão, vai até a janela e observa a solidão da noite. De manhã, já no escritório, Flávio, sentado à mesa, tira do bolso da calça o pedaço de papel. Olha para o mesmo e respira fundo. Decidi-se; pega o celular e disca. - Bom dia! É que... É que eu gostaria de... Eu gostaria de marcar uma consulta. Uma semana depois... No corredor de um edifício, Flávio está de pé, em frente a uma porta com as inscrições “CONSULTÓRIO DE PSICOLOGIA”. Finalmente, decide tocar a campainha. Depois de alguns instantes, a porta é aberta por Ana Flávia. A moça faz o cumprimento: - Olá! Tudo bem? Flávio olha-a de baixo a cima e, encantado, sorri. - Tudo... Tudo bem, menina! Ana Flávia retribui o sorriso.

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