• Fábio da Silva

A MATA - Apaixonar-se pode ser mortal

Atualizado: 26 de abr.



1


Era dia na Fazenda Santa Helena. Com a espingarda em punho, Eduardo Ribeiro – um jovem alto e branco, de cabelos castanhos, por volta dos trinta anos – pulou a cerca da propriedade e seguiu correndo velozmente em direção ao casarão, que se encontrava lá adiante. Suas roupas estavam sujas e amarrotadas. Seu semblante era de desespero. Quando Eduardo finalmente invadiu correndo a sala do casarão, Dalva – uma senhora morena e forte, por volta dos cinquenta anos, que usava um vestido de alças - se assustou e deixou o pequeno vaso de plantas que segurava cair no chão. Súbito, uma voz feminina gritou. Um rugido de onça ecoou. O rapaz subiu a escada apressadamente até o segundo andar, onde deu um ponta-pé na porta de um dos quartos, no qual entrou, mirou e atirou. Eduardo abaixou a espingarda e a soltou no chão. Pôs-se de joelhos e, chorando, lamentou:

- Me perdoe! Me perdoe, Marília! Me perdoe!

Uma poça de sangue aproximava-se de Eduardo.

- Eu, que sempre fui um homem racional, arrisquei tudo por causa dela, dela e da minha vaidade. Isso foi há um ano, mas tudo continua tão vivo em minha mente como se tivesse acontecido ontem.


Um ano antes...


Era final de tarde. Um avião vindo do Rio de Janeiro aterrissava na pista do Aeroporto Internacional de Corumbá, em Mato Grosso do Sul. No desembarque, dentre os passageiros, surgia Eduardo Ribeiro – já descrito no início de nossa trama -, que era recebido por sua noiva Marília Gonçalves de Alencar – uma bela jovem, alta e branca, de longos cabelos negros e olhos azuis, tinha por volta dos trinta anos e vestia-se elegantemente. Ambos se abraçaram e se beijaram calorosamente.

- Saudades, Marília?! – perguntou Eduardo.

- O que você acha, Edu?! – respondeu a moça - Fez boa viagem?

- Foi ótima! Mas a recepção aqui em Corumbá foi bem melhor.


Caro leitor, antes de prosseguirmos com a nossa história, permita-me fazer uma breve descrição de Corumbá.

Localizada a mais de 400 quilômetros da capital do estado de Mato Grosso do Sul, Campo Grande, a cidade, que se desenvolveu às margens do Rio Paraguai, já contabiliza uma população de mais de 100.000 mil habitantes.

Fundada em 1778, foi chamada, em suas primeiras denominações, de Arraial de Nossa Senhora da Conceição de Albuquerque e de Freguesia de Santa Cruz de Corumbá.

Sua ocupação teve início, ainda no Século XVI, quando os portugueses tencionavam encontrar ouro na região. Posteriormente, com o intuito de defender as terras das invasões espanholas, fixaram-se pontos militares, estabelecendo-se o domínio português.

Na segunda metade do Século XIX, a região foi ocupada e destruída, em virtude da Guerra do Paraguai, como consequência a navegação pelo Rio Paraguai foi interrompida, desestruturando assim o comércio. Finda a guerra, a cidade foi reconstruída e a navegação restabelecida, ocasião em que começaram a chegar imigrantes latino-americanos e europeus, alavancando o desenvolvimento da cidade.

Devido a sua localização fronteiriça, a única forma de comunicação da região era através dos rios, motivo pelo qual, até a década de 50 do século passado, a cidade era influenciada pelos países da Bacia do Prata, herdando seus costumes, linguagem e música.

No início do Século XX, com a construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, o transporte fluvial ficou em segundo plano, logo o comércio deslocou-se do sul do, até então, estado de Mato Grosso para Campo Grande. Por conseguinte, Corumbá voltou-se para a mineração e as atividades rurais. Nos dias de hoje, dedica-se também ao turismo.

Na década de 40, a cidade iniciou suas atividades industriais, explorando principalmente o calcário e outras riquezas minerais.

No final dos anos 70, iniciou-se a exploração da atividade turística, o que viabilizou a restauração das construções antigas pelos empresários desse segmento. O turismo firmou-se nos anos 80, mudando de vez a economia da cidade, gerando uma infra-estrutura para atender melhor os seus visitantes.

Embora o ecoturismo ainda não tenha alcançado o seu potencial máximo, vale ressaltar que é no Rio Paraguai onde encontramos as regiões mais procuradas para o turismo no Pantanal.

Basicamente, a pecuária do gado de corte é a única atividade exercida nas fazendas, enquanto que no centro urbano, o mercado de trabalho é voltado para a prestação de serviços e o comércio.

Tombados em 1992, os casarões e sobrados, construídos numa época próspera, revelam a beleza da influência do estilo europeu em Corumbá. Os prédios que compõem sua paisagem estão dispostos nas ditas partes alta e baixa.

Atualmente, sua arquitetura é um misto do antigo e do novo, com modernas edificações emergindo na cidade.

Falar de Corumbá é falar do Pantanal.

Sendo a maior planície alagável do planeta, o Pantanal avança por terras brasileiras, paraguaias e bolivianas. No Brasil, abrange os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, sobretudo a cidade de Corumbá.

Esse paraíso ecológico destaca-se por apresentar uma grande diversidade de espécies de fauna e flora.

Uma característica peculiar do Pantanal é seu ciclo de cheias e secas. De modo geral, a região apresenta períodos mais chuvosos de novembro a abril e de maior estiagem de maio a outubro. O verão caracteriza-se por ser bastante quente, enquanto que o inverno pode ser muito frio.

Chamada de “Cidade Branca” - pelo fato de sua terra ser rica em calcário, conferindo-lhe uma cor clara -, considerada pelos corumbaenses como “Capital do Pantanal” - em virtude deste paraíso ecológico ocupar, em grande parte, o seu território -, a cidade de Corumbá será o palco da nossa história...


Retornando do aeroporto, a caminhonete vermelha de Marília seguia pela estrada de terra em meio às propriedades rurais. Ela estava ao volante, e Eduardo, no banco do carona.

- E como você ficou essa semana, Edu? Alguma evolução? – perguntou a moça.

- Nada, Marília. Nada. Parece que vou continuar no atendimento ambulatorial por um bom tempo. – respondeu desanimado.

- Você fez o que pode, Edu. Aliás, nós fizemos. – tentou confortá-lo.

- Eu sei, Marília. Eu sei.


Eram médicos num renomado hospital do Rio de Janeiro. Ela corumbaense de nascença, mas carioca de coração, fora cursar medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro e, depois de formada, acabou se estabelecendo por lá. Ele, carioca da gema e oriundo de uma família de classe média alta da Zona Sul, cursara medicina na mesma universidade que Marília. E, embora colegas de curso, não tiveram nenhum envolvimento, pois a moça já se encontrava enamorada por outro e, ao que parecia, iria dar em casamento. Perderam contato depois de formados, reencontrando-se tempos depois, quando foram trabalhar juntos no mesmo hospital. Na ocasião, ambos estavam livres e puderam dar início a um relacionamento, que evoluíra para noivado há alguns meses. E já estavam com o casamento marcado para daqui a um ano.

Eduardo, sempre exigente consigo mesmo, era um cirurgião de destaque e respeitado pelos colegas; mas, infelizmente, depois daquele trágico dia em que perdera, pela primeira vez, uma paciente, naquela emergência de hospital, sua vida ficou marcada para sempre. Considerou aquela perda uma derrota e fazia seis meses que não conseguia realizar um procedimento cirúrgico.


Por fim, a caminhonete vermelha de Marília atravessou uma grande porteira com a placa contendo a inscrição “FAZENDA SANTA HELENA, SEJA BEM-VINDO!”, seguiu propriedade adentro, parando em frente ao casarão em estilo colonial, que era a morada dos Gonçalves de Alencar – uma tradicional e respeitada família corumbaense. Lá, os aguardavam os pais da moça e três empregados. Marília e Eduardo desceram do veículo e subiram o pequeno lance de degraus até a varanda; foram recebidos por Francisco Gonçalves de Alencar – um senhor de estatura mediana, branco, forte, de bigode, por volta dos sessenta anos, que usava aquele típico chapéu de fazendeiro – e sua esposa Ângela Gonçalves de Alencar – uma bela senhora, alta e branca, de olhos azuis, por volta dos cinquenta e igualmente elegante como a filha; Dalva – já descrita no início - e sua filha Ritinha – uma bela moreninha, de cabelos negros, por volta dos vinte anos, que trajava um vestidinho de alcinhas; e Toninho – um moreno, magro, por volta dos trinta, que usava roupas e chapéu surrados.

- Ora, ora! Até que em fim! – exclamou Francisco.

- Pensávamos que não viria mais, Eduardo. – disse Ângela.

- Seu Francisco! Dona Ângela! Como estão?

Cumprimentaram-se. Marília acrescentou:

- Ele não faria uma maldade dessas comigo, mamãe.

- Como foi de viagem, meu rapaz? E como anda a cidade maravilhosa? – perguntou o sogro.

- Fui bem, Seu Francisco. Obrigado! E o Rio continua agitado como sempre.

- Certo, certo. – e volvendo para a filha - Sabe, Eduardo, alguém aqui não se aguentava mais de saudade.

- E quem seria essa pessoa? – brincou o médico.

Todos riram. Naquele instante, Ângela apontou para os três empregados.

- Eduardo, estas são Dalva e a filha Ritinha, nossa afilhada.

- Tudo bem? – disse o rapaz cordialmente.

- Seja bem vindo, Doutor! – falou Dalva com um sorriso.

Ritinha apenas sorriu.

- E aquele é o Toninho. – completou a sogra.

Francisco acrescentou:

- Também conhecido como frouxo.

- Ô Chico! – disse Ângela em tom de repreensão.

Toninho sorriu sem graça. Ângela completou:

- Agora, vamos entrando que você deve estar cansado e faminto.

- Pois bem! – disse Francisco - Eduardo, não se preocupe com a bagagem. O Toninho vai levar suas coisas pro quarto de Marília.

Enquanto todos entravam no casarão, Toninho dirigia-se a caminhonete vermelha de Marília a fim de pegar a bagagem do médico.


Chegara a noite. Na cozinha de uma humilde construção, uma jovem mulher, de pele alva, lavava a louça. Seu esposo Jorge – um moreno, por volta dos quarenta – entrou pela porta dos fundos.

- Ué mulher! Já jantou sem mim? – disse.

- Cansei de te esperar, Jorge! – justificou-se a mulher - Todo dia é a mesma coisa!

- Ai, ai, mulher, não vai começar com esse sermão de novo.

Sua esposa pegou a colher de pau, que acabara de enxaguar, e apontou para Jorge, dizendo:

- Você prefere ficar se entupindo de cachaça com aqueles seus amigos a estar comigo. Vocês homens são todos iguais.

Jorge agarrou a mulher pela cintura e tentou beijá-la.

- Vem cá, meu amor. Me dá um beijinho.

E a esposa, afastando Jorge de si:

- Me larga, homem! Em vez de gastar dinheiro com cachaça, devia comprar o leite das crianças.

- Caramba, mulher! – irritou-se - Você é uma chata!

- Não grita, homem! Vai acordar as crianças! – advertiu.

- Quer saber? Eu vou lá pra fora fumar um cigarro.

- Com esse cheiro de cachaça você vai acabar explodindo.

Recostou-se numa das colunas de madeira, que sustentavam o telhado da varanda de sua casa. Por fim, Jorge acendeu um cigarro. Deu uma profunda tragada e soltou a fumaça lentamente, tentando relaxar. Contemplava a noite enquanto os grilos cantavam. A seguir, Jorge desceu o pequeno lance de degraus da varanda e começou a caminhar pela propriedade, onde havia vegetação por todos os lados e a iluminação era precária. Sua vizinhança era composta por algumas casas distantes. Enquanto caminhava, um galho estalou no meio do mato.

- Tem alguém aí?! – perguntou Jorge.

Não obteve resposta. Então, deu uma última tragada, jogou o cigarro no chão e pisou nele. Subitamente, um rato saiu correndo do mato assustando-o.

- Mas que diabo! Maldito rato!

Respirando ofegante, sorriu aliviado. Retomou sua caminhada. Novamente, grilos cantavam. Outro galho estalou no mato. Os grilos silenciaram-se. Jorge volveu na direção do barulho. Pegou um pedaço de madeira que estava no chão. Aproximou-se da vegetação.

- Agora te pego, seu rato safado.

Súbito. Algo enorme pulou da vegetação sobre Jorge, que começou a gritar. Rapidamente, sua mulher surgiu na varanda. E vendo o esposo sendo atacado pôs-se a gritar também.

- Jorge!!! Jorge!!! Ai, meu Deus!!! Jorgeee!!!

Desesperada, a mulher abaixou-se chorando, agarrando-se a uma das colunas de madeira, que sustentavam o telhado da varanda.


2


Raiara o dia. E, na Fazenda Santa Helena, Eduardo, Marília, Francisco e Ângela caminhavam pela propriedade, próximos a área dos estábulos, onde os peões e outros funcionários realizavam suas atividades rotineiras. Eduardo fez um elogio:

- O senhor tem uma bela fazenda, Seu Francisco.

- A sim, obrigado! Mas, infelizmente, sou o segundo produtor da região. – lamentou-se.

- O maior criador daqui é mesmo o Senhor Andrade, da Fazenda Paraíso. – acrescentou Marília.

- Aquele mau-caráter. – praguejou Francisco.

- Ô Chico! – repreendeu Ângela, que volveu em seguida para o genro - Você chegou em boa hora, Eduardo. Agora em junho vai acontecer a Festa de São João. É uma das maiores festas de Corumbá.

- Sabe, Edu, existem muitas festas por aqui. – informou a noiva - Bom, não são grandes como as do Rio, mas são as maiores de todo o Mato Grosso do Sul.

Naquele instante, montado a cavalo, aproximava-se o irmão caçula de Marília, Roberto Gonçalves de Alencar – um jovem alto e branco, menos de trinta anos, usava chapéu de peão tal como o pai e uma grande fivela no cinto. Ele, dirigindo-se a Eduardo, disse:

- Então você é o meu futuro cunhado?

- Acho que sim. – respondeu Eduardo.

Depois, Roberto volveu para os pais:

- Meu pai, minha mãe, sua benção!

- Deus te abençoe, meu filho! – desejou Francisco.

- Deus te abençoe e te dê juízo! – desejou também Ângela.

A seguir, em tom de deboche, volveu para a irmã:

- Bom dia, Mari!

- Bom dia, convencido! – disse Marília em mesmo tom.

Então, o filho mais novo dos Gonçalves de Alencar desmontou e cumprimentou o médico com um aperto de mão.

- Finalmente estou te conhecendo, Eduardo. Pensei que não viria mais.

- Sabe como é essa vida de médico. – justificou-se - Tire pela sua irmã.

- Bom, como dizem: antes tarde do que nunca, não é mesmo?

- É isso aí. – concordou Eduardo.

- Pois é. – Roberto sorriu e volveu para Francisco - Pai, uma das cercas, que faz divisa com a Fazenda Paraíso, está quebrada.

- Então é melhor consertar logo – recomendou Francisco - antes que a gente perca cabeças de gado pro Andrade.

- Pode deixar, papai. Vou falar com o Toninho – Roberto montou o cavalo e volveu para o cunhado – Eduardo, foi um prazer.

E o médico:

- O prazer foi todo meu.

Então o irmão de Marília fez um convite:

- Gostaria de praticar um pouco de tiro um dia desses?

- Eu não sei atirar. – informou Eduardo.

E Roberto já se afastando a galope:

- Não se preocupe. Eu te ensino.

Francisco disse orgulhoso:

- Roberto foi campeão nacional de tiro por três vezes, Eduardo.

Ângela corrigiu:

- Duas vezes, Chico!

- Meu irmão é um exibido – disse Marília -, mas todos na cidade gostam dele.

- Por falar em cidade, o que acham de darmos um pulo por lá antes do almoço? – sugeriu Francisco.


Na Rua Frei Mariano – uma das principais vias da cidade de Corumbá –, via-se um comércio típico de uma cidade do interior. Lá havia lojas de roupas, lanchonetes, armarinhos, restaurantes, bares etc. Enquanto conduzia sua caminhonete prata, Francisco acenava para os conhecidos que encontrava durante o trajeto. Quando o veículo finalmente parou, o fazendeiro, sua esposa Ângela, sua filha Marília e seu genro Eduardo desceram. Então, a filha dirigiu-se ao pai:

- Bom, enquanto o senhor apresenta a cidade pro Edu, mamãe e eu estaremos aqui pelo comércio.

- Não se preocupem conosco. – disse Ângela - Vamos dar uma olhada numas roupinhas.

Enquanto mãe e filha se afastavam, Francisco debochou:

- Mulheres! Vão olhar umas roupinhas. Acredita nisso?

- Com certeza, vão querer levar toda a loja – respondeu Eduardo.

Após rirem, o sogro fez o convite:

- Vamos andando!


Seguiam pela Praça da Independência, onde o movimento era tranquilo: crianças brincavam, casais andavam de mãos dadas, uma senhora dava comida para os pombos etc. A citada praça situava-se em frente à Igreja do Santuário de Maria Auxiliadora. O sogro, volvendo para o genro, fez uma pergunta:

- O que está achando da cidade, Eduardo?

- Bem diferente do Rio, Seu Francisco. Bastante calma.

- Realmente, as pessoas por aqui não têm pressa.

Eduardo apontou para o coreto localizado no centro da praça.

- Um coreto – disse admirado - Sabe é difícil ver um desses na cidade grande.

- Foi importado da Alemanha – informou prontamente o sogro, que logo após apontou para um bar do outro lado da rua. - Vamos ali ter com um amigo meu.

Entraram no Bar do Fidelis. O estabelecimento tinha aquele movimento habitual de um fim de manhã. Clientes jogavam cartas numa das mesas, enquanto um pinguço degustava um copo de branquinha no balcão. Francisco e Eduardo pararam em frente ao balcão. Ao que o primeiro disse:

- Ô Fidelis, bota uma das boas pra mim e pro meu futuro genro.

- É pra já, Francisco – respondeu o dono do bar.

O sogro volveu para o genro e faz uma interrogativa:

- Você bebe, não bebe, Eduardo?

- Só socialmente.

- Então, hoje vamos fazer o social. – disse animado.

Fidelis – um homem branco e magro, de estatura mediana, por volta dos cinquenta anos - serviu dois copos de cachaça e disse:

- Então, esse é o famoso noivo, Francisco.

- Confesso: sou eu o culpado – brincou Eduardo, erguendo os braços. - Mas ainda falta um ano.

- Vai ser o maior casamento que essa cidade já viu. – disse o fazendeiro orgulhoso.

A seguir, Francisco pegou um dos copos de cachaça e entornou de uma vez.

- Essa é das boas! – exclamou - Agora é sua vez, Eduardo.

O rapaz pegou o seu copo, despejou a bebida e, antes de terminar, começou a tossir. Todos os clientes perceberam sua falta de intimidade com a cachaça.

- Parece que o Doutor não está acostumado à coisa forte – observou Fidelis.

E Francisco, decepcionado:

- Pensei que aguentasse, rapaz.

- Espere... Espere... Coloque mais um copo, Fidelis – pediu Eduardo.

O dono do bar serviu mais um copo de cachaça. Sob os olhares atentos dos clientes, o médico respirou fundo e bebeu tudo de um só gole. Todos comemoraram.

- Muito bem! Muito bem! – exclamou o sogro - Taí um homem que aceita um desafio! Taí um carioca com sangue de pantaneiro! – deu alguns tapinhas nas costas do genro.

E Fidelis, mudando de assunto:

- Ô Francisco, tá sabendo da morte que ocorreu ontem à noite, lá em Ladário?

- Não! Quem morreu?

- O Jorge, que era lá da Paraíso. Não lembra dele?

- O Jorge? – puxou pela memória - Claro que eu lembro. Era um dos peões do safado do Andrade. Mas o que houve?

- Ele estava no quintal de casa. Aí apareceu uma onça e acabou com ele. A esposa viu tudo – explicou Fidelis.

- Mas que coisa horrível. Pobre infeliz.

Eduardo questionou:

- É comum ataque de onça por aqui?

- O pior é que não. – respondeu o sogro - E por falar no diabo! – disse ao ver o Andrade entrando pela porta do estabelecimento.

Andrade – um homem branco e alto, forte e careca, por volta dos sessenta anos – era o proprietário da Fazenda Paraíso – a maior estância da região. Não era muito bem quisto pelo povo de Corumbá, porém tinha certa “influência política”, resultante mais pelo medo que causava e menos por sua simpatia. Ele entrara e dirigiu-se ao dono do bar.

- Ô Fidelis, me vê um maço de cigarros.

- Devia largar esse vício, Andrade. Isso pode te matar um dia – ironizou Francisco.

Fidelis pôs o maço de cigarros sobre o balcão.

- Aqui está, Seu Andrade!

Andrade pagou, pegou o maço e pôs no bolso da camisa. E, volvendo para Francisco:

- É preciso mais do que isso pra me matar, Francisco.

- Conheço gente que já morreu por menos – replicou o sogro de Eduardo.

Andrade sorriu forçado com seus dentes amarelos de fumante. Todos os clientes observavam o rumo daquela prosa, apreensivos.

- Por falar nisso, já consertou aquela cerca que está quebrada? Não quero que pense que estou roubando o seu gado – disse o dono da Fazenda Paraíso.

E o dono da Fazenda Santa Helena respondeu ironizando:

- E por que eu pensaria isso? Todos aqui sabem que você é um exemplo de honestidade.

Os clientes riram disfarçadamente.

- Por isso gosto de você, Francisco. Você não tem papas na língua – observou Andrade.

- É uma pena, eu não poder dizer o mesmo de você, Andrade. – e abordou a morte em Ladário – A essa altura, você já deve saber que aquele seu ex-funcionário, o Jorge, foi morto por uma onça. Está pensando em ajudar a família?

- Sim, já sei, mas como você mesmo disse é meu ex-funcionário. Então, não é problema meu. Bem, eu já vou indo. – e saiu.

O dono do bar comentou com espanto:

- Francisco, só você mesmo pra peitar o Andrade.

- E eu lá tenho medo de ninguém, Fidelis. Ainda mais de um covarde safado como ele.


Numa movimentada e tradicional loja da cidade, mãe e filha escolhiam algumas peças de roupa quando sogro e genro entraram e aproximaram-se delas.

- Aí estão vocês duas. Já compraram a loja toda? – perguntou Francisco.

- Ainda não, Chico. – respondeu Ângela.

E Eduardo, abraçando a noiva:

- Estou me sentindo abandonado, Marília.

- Ô meu amor, só mais uns minutinhos.

Ângela, volvendo para a filha, perguntou:

- Mari, qual dessas blusas eu devo levar?

- Mamãe, qualquer uma das duas é bonita.

E Francisco, já impaciente:

- Leva logo as duas! E vamos embora, mulher!

- Calma, Chico! Você é sempre tão apressado.

- Eu apressado?! Você é que demora demais pra escolher, mulher!

- Olha só, a idéia de vir à cidade foi sua, homem! Agora, aguenta! – sorriu.

Eduardo observava a situação e ria. A fim de fugir daquela confusão, decidiu caminhar pela loja. Ele observava distraidamente alguns artigos, quando Caroline – uma jovem e bela morena de estatura mediana, longos cabelos negros, por volta dos vinte e cinco anos, usando um vestido de alças simples e sandálias – aproximou-se dele e disse:

- Com licença! Aqueles vestidos que estão na vitrine... Por acaso, tem do meu tamanho?

- Bom, talvez fosse melhor você perguntar pra uma das vendedoras – respondeu Eduardo sorrindo.

E a moça, caindo em si:

- Me desculpe. É que eu pensei que você...

- Que nada. – foi simpático - Isso sempre acontece comigo.

Ambos riram. Caroline despediu-se:

- Tchau!

- Tchau!

A morena aproximou-se de uma das vendedoras e, volvendo sensualmente para o médico, sorriu. Ele, por sua vez, retribuiu-lhe o gesto. A seguir, Eduardo volveu o olhar para os sogros e a noiva, que ainda estavam em dúvida quanto às roupas. Percebendo que aquele debate era interminável, resolveu continuar com seu passeio pela loja. Quando o médico parou distraidamente junto a uma bancada de roupas, Caroline aproximou-se dele e fez uma interrogativa:

- Decisão difícil?

- Como? – respondeu o médico.

- Seus sogros e sua noiva não sabem o que levar.

- Ah, sim! Por isso prefiro ficar só observando. Mas quem garante que não são meus pais e minha irmã?

- Todos em Corumbá conhecem os Gonçalves de Alencar. E a aliança na sua mão direita diz o resto – explicou.

Ele, levantando a mão da aliança, sorriu.

- É claro! Muito observadora, senhorita...

- Caroline. – disse ela prontamente - E você é?

- Eduardo?! – chamou Marília ao ver seu noivo perto de tão bela morena.

O doutor volveu o olhar para a direção da noiva. Ao que Marília ordenou:

- Venha já aqui, Eduardo!

Prontamente, ele aproximou-se da noiva, que o interrogou:

- Quem é aquela?

- Ninguém. Pensou que eu fosse um vendedor.

Com olhar de desdém, Marília observou Caroline de cima a baixo e de baixo a cima. A seguir, beijou Eduardo e teceu um comentário:

- Ela não tem classe. É bonita, mas não tem classe.

- Nem chega aos seus pés – confirmou o noivo, massageando o ego da moça.

Mas a verdade é que Eduardo não pode resistir. E quem poderia... Afinal a morena tinha uma beleza natural. Não era elegante ou produzida como a sua noiva, ou como as mulheres da cidade grande; mas, de uma maneira singela, aquela moça de cidade do interior chamava a atenção. Tinha cabelos negros brilhantes, seus olhos castanhos eram penetrantes e sua pele morena parecia macia como o pêssego. Então, o médico disfarçou e trocou olhares com Caroline, que passando sensualmente a mão nos cabelos, deixou a loja.


Já era de tarde. Disparos de arma de fogo ecoavam pela Fazenda Santa Helena. As latas em cima de um cavalete eram alvejadas. Roberto, empunhando a sua espingarda, continuava com os disparos acertando todas as latas. Sentados numa cerca, estavam sua namorada Fernanda Linhares – a bela filha do Prefeito, uma moça de estatura mediana, alva e loira, por volta dos vinte cinco anos, trajando um vestido estampado -; Eduardo e Marília; Ritinha e Toninho. Ao final da exibição todos aplaudiram.

- Muito bem, meu amor! – exclamou Fernanda. - Você merece um beijo.

- Só um, Fernanda? – questionou Roberto debochado - E por que não dois? – aproximou-se da namorada, e o casal se beijou.

Ritinha inclinou-se para Toninho e fez uma proposta:

- Se você acertar uma latinha que seja, eu te dou todos os beijos que você quiser.

- Sossega, menina! – repreendeu o rapaz.

- Hei, Toninho o que está esperando pra beijá-la? – incentivou Roberto.

- Roberto, para com isso. Está deixando ele sem graça – observou a irmã.

Naquele instante, Toninho ficou olhando para Marília, admirando a atitude e a beleza da patroa, enquanto era observado por Ritinha, que disse:

- Você devia fazer o que o patrãozinho disse, Toninho.

- Deixa eu colocar as latas no lugar – disse o rapaz que, tentando se esquivar, desceu da cerca e correu até o cavalete.

Intrigado, o médico volveu para Marília e perguntou:

- Qual o problema deles dois?

- Ih, Eduardo! É coisa antiga. Ritinha é apaixonada por Toninho desde menina. Ela sempre disse que iria se casar com ele. Só que ele sempre a viu como uma irmã - explicou.

Roberto intrometeu-se:

- O Toninho é frouxo demais pra namorar a Ritinha. E por falar em frouxo - volveu para o rapaz, que colocava as latas no cavalete. - Ô Toninho, você já consertou aquela cerca?

- Sim, senhor, Seu Roberto! – respondeu.

- Depois eu vou lá conferir, hein! – e ordenou - Agora venha já pra cá!

Toninho colocara a última lata no cavalete, correu de volta e sentou-se na cerca ao lado de Ritinha. A seguir, Roberto volveu para Eduardo.

- Vamos, cunhadinho. Sua vez.

- Não obrigado! Prefiro manter distâncias de armas, Roberto.

- Ora, vamos lá, Eduardo! Ou está com vergonha de fazer feio na frente da noivinha?

Não gostava que duvidassem de sua capacidade. Fazia parte da personalidade do médico provar pra si mesmo e para os demais que era capaz de fazer qualquer coisa que se propusesse, principalmente quando desafiado. Eduardo olhou para Roberto. Depois, volveu para Marília. A seguir, tornou a olhar para o cunhado. Decidiu-se.

- Me dá já essa arma! – e de posse da espingarda - Como eu faço?

Marília incentivava:

- Vai lá, meu amor, mostra pro convencido do meu irmão.

Roberto deu as instruções básicas para Eduardo.

- É só mirar, se concentrar, prender levemente a respiração e atirar.

- Só isso? – perguntou Eduardo.

- Só. É fácil. Até um médico consegue fazer. – desdenhou o irmão de Marília.

Então, o doutor, conforme as instruções dadas pelo cunhado, mirou, concentrou-se, prendeu levemente a respiração e atirou. E continuou com os disparos acertando todas as latas. Aplausos. Eduardo desfez a pontaria e virou-se pro cunhado.

- Tinha razão, Roberto. É bem fácil. Até um médico consegue fazer - devolveu a espingarda para o cunhado e beijou a noiva.

- Agora eu sei que estou muito segura sabendo que meu noivo é bom de mira – disse Marília.

Ritinha fez um elogio:

- O Doutor atira muito bem!

- Já tinha atirado antes, Eduardo? – perguntou o cunhado, intrigado.

- Não. É minha primeira vez, Roberto.

Toninho observou:

- O Doutor, acertou todas as latas!

E Eduardo, envaidecido pela façanha:

- Com precisão cirúrgica, Toninho. Com precisão cirúrgica.

- Hum! Sorte de principiante – comentou Roberto enciumado.

- Parece que alguém está com ciúmes – disse a irmã.

Fernanda interveio em favor do namorado.

- Parem de amolar o meu amorzinho. Vem cá, Roberto!

O irmão caçula de Marília aproximou-se de Fernanda e volveu para o doutor.

- Eduardo, não esqueça que é bem diferente quando se atira em um alvo móvel. – observou.

- Vou tentar me lembrar disso, Roberto. – disse sorrindo.


Retornando da prática de tiro, os dois veículos dos Gonçalves de Alencar seguiam pela estrada de terra. Acompanhado da namorada, Roberto ia à frente conduzindo a caminhonete prata do pai. Marília vinha a seguir conduzindo sua caminhonete vermelha, em companhia do noivo, Toninho e Ritinha. Eis que diante deles surge um rapaz acenando desesperadamente. Não tinha mais que vinte anos. Implorava:

- Socorro!! Socorro!!

Os veículos frearam bruscamente. Ao desceram das caminhonetes, seus ocupantes depararam-se com uma jovem caída no chão, desacordada, ao lado de uma bicicleta. A moça, que aparentava ter menos de dezesseis anos, tinha estatura mediana, cabelos loiros compridos e usava um vestidinho claro.

- Graças a Deus! Me ajudem por favor! – pediu o rapaz.

E Roberto:

- Mas o que está acontecendo?

- O que houve com a menina? – perguntou Marília.

E o rapaz:

- Eu conduzia a bicicleta e a minha irmã, que estava no banco de trás, de repente desmaiou.

Marília abaixou-se rapidamente diante da moça e começou a examiná-la. Perguntou:

- Isso já aconteceu antes, rapaz?

- Não, senhora. – respondeu - É a primeira vez que vejo minha irmã desmaiar.

- Ela tem algum tipo de doença? – perguntou a médica.

- Não que eu saiba, senhora.

Eduardo permaneceu estático ao ver aquela menina caída no chão. Aquela cena trouxe-lhe a lembrança do incidente de seis meses atrás. Ele suava frio e a ansiedade fazia-se pública em seu semblante. Marília percebeu que o noivo estava distante, próximo de uma das caminhonetes, evitando o enfrentamento daquela situação, ignorou a atitude de Eduardo e prosseguiu com o exame.

- O pulso e a respiração estão bons. Deve ter sido um mal-súbito. – suspeitou - Temos de levá-la pro hospital. Vamos! Ajudem-me a colocá-la na caminhonete. – ordenou a médica.

Roberto e Toninho pegaram a moça e a colocaram cuidadosamente no banco de trás do veículo prata de Francisco.

- Cuidado com a cabeça dela. – recomentou Marília.


Mais tarde, na varanda do quarto da noiva, Eduardo encontrava-se sentado num sofá de vime. Seu olhar era pensativo. Vindo do quarto, Marília aproximou-se de seu noivo, sentou-se ao seu lado e perguntou:

- Está tudo bem, Edu?

- Eu não consegui fazer nada. – lamentou o médico.

A noiva tentou confortá-lo.

- Edu, não pode ficar se cobrando assim. O importante é que a moça está bem. – pausou e continuou - Olha, falei com todos pra não comentarem o ocorrido com ninguém.

E Eduardo:

- Se eu tivesse feito mais, se eu tivesse sido mais rápido, ela estaria viva, Marília.

E ela caindo em si:

- Por Deus, Eduardo! Isso foi há seis meses. Nós fizemos tudo que podíamos pra salvar aquela moça. Você tem de superar isso! – fez uma pausa e prosseguiu - Edu, você não pode salvar a todos! Você não é Deus!

E o médico, volvendo para Marília:

- Bem que eu poderia ser.

A moça espantou-se com as palavras do noivo. Ambos se olharam por algum tempo. Os olhos de Eduardo ficaram marejados. Por fim, o médico caiu em prantos. Lentamente, ele pousou sua cabeça no colo da noiva que lhe afagava os cabelos enquanto ele chorava.


3


Chegara a manhã do dia seguinte. Suas pernas alternavam-se rapidamente pela estrada de terra. Ele suava muito. Numa das mãos, carregava uma garrafa d’água a fim de hidratar-se. Enquanto corria, Eduardo contemplava a beleza da paisagem das propriedades rurais que o cercavam. Tentava esquecer a frustração do dia anterior. Mais adiante, avistou beleza ainda maior, avistou Caroline. Ela caminhava despreocupada, ou melhor, desfilava. O médico alcançou a moça quando ela já passava em frente a uma grande árvore. Eduardo diminuiu o passo, começou a caminhar ao lado da morena e, sorridente, fez uma saudação:

- Olá, Caroline!

- Oi. – disse a moça desinteressada.

- Mundo pequeno, hein?!

- Corumbá é pequena.

- Não deu tempo de eu me apresentar ontem. - estendeu a mão - Meu nome é...

- Eduardo. – adiantou-se a morena.

- Como sabe? É adivinha?

- Não. A sua noiva te chamou assim, lá na loja de roupas. – explicou e fez uma observação - Ela parece ser ciumenta.

- É, sim. Mas só um pouquinho.

Já sorridente, Caroline fez uma interrogativa:

- De onde você é, Eduardo? Rio de Janeiro?

- Isso mesmo. Cidade Maravilhosa.

- Suponho que deva ser médico lá também, como a sua noiva.

- Na verdade eu sou médico em qualquer lugar, Caroline.

Ambos riram.

Ele continuou:

- Me tira uma dúvida: todas as corumbaenses são bonitas assim?

- Me diga você. Afinal você é noivo de uma.

Trocaram olhares.

- Não vai continuar sua corrida? – lembrou Caroline.

- É mesmo. Melhor eu ir andando. Não posso deixar o corpo esfriar. A gente se vê, Caroline. – voltou a correr.

- Todos os cariocas são atrevidos assim? – interrogou a moça.

E Eduardo, volvendo para Caroline:

- Só quando vemos uma mulher bonita. – virou-se de volta e continuou a correr.


A noite não tardou a chegar à Fazenda Santa Helena. E em frente ao casarão dos Gonçalves de Alencar, uma roda de viola, composta pelos peões Tião, Fugêncio e Justino, cantava e tocava a música “ÍNDIA”. Tião era um negro alto e magro; já Fugêncio, um moreno forte, de estatura mediana; enquanto que Justino era um branco franzino. Animados por natureza, os três eram peões daquela estância e, de vez em quando, alegravam as noites da fazenda. Assistiam à apresentação, sentados em bancos de madeira construídos debaixo de uma grande árvore, que fazia frente ao casarão, os casais Eduardo e Marília; Roberto e Fernanda; Francisco e Ângela; a empregada Dalva e sua filha Ritinha; o faz tudo Toninho; e um quarto peão chamado Damião – este de estatura mediana, aparência de índio, por volta dos trinta e cinco anos, era mais sério que seus três colegas de lida. Todos estavam ao redor de uma fogueira, que iluminava a ocasião tornando o clima muito aconchegante. Finalizada a canção, aplaudiram.

- Já pensaram em seguir carreira? – perguntou Eduardo.

- Não, senhor, Doutor! – respondeu Tião, que continuou - Não largo essa vida por nada. – volveu para o amigo - Certo, Fugêncio?

- É verdade, Tião! – confirmou Fugêncio. - A gente tem tudo aqui: nossa viola, nossa canção, nosso cavalo e nossas mulheres.

- Principalmente as mulheres. – completou Justino – Eita, bicho bom!

Todos riram. Ao que Francisco disse:

- Tanto são as melhores coisas do Pantanal, que tem até carioca vindo pra cá atrás delas.

- Na verdade, sua filha é que foi lá me buscar, Seu Francisco. – esclareceu Eduardo.

- É papai, Edu estava bem quietinho no Rio quando eu fui pra lá cursar medicina. – lembrou Marília.

Roberto intrometeu-se:

- Mari, falando assim até parece que aqui em Corumbá não tem homem.

- Nenhum a minha altura. – respondeu a irmã em tom de brincadeira.

- Metida! – disse Roberto sorrindo.

Risos à parte, Toninho admirava a beleza e a naturalidade de Marília, enquanto que Ritinha namorava o frouxo com os olhos. Por fim, Tião puxou o assunto que estava em voga:

- Ô Seu Francisco, e quanto ao Jorge, hein? Que falta de sorte ser morto por uma onça.

- Pobre infeliz! E o pior é que a esposa viu tudo. – informou o fazendeiro.

Fugêncio lançou uma interrogativa:

- E quanto à viúva e os filhos?

- Chico e eu nos oferecemos pra ajudá-los no que precisarem. – respondeu Ângela.

- Se depender de mim, não vai faltar nada pra família do falecido. – acrescentou o dono da Santa Helena.

E Justino, meneando a cabeça positivamente:

- Faz muito bem, Seu Francisco.

Toninho fez uma observação:

- Se o patrão Roberto encontrasse essa onça, ela já estaria morta.

E o irmão de Marília, cheio de si:

- Pode acreditar, Toninho. Pode acreditar.

- Querem saber? – disse Damião - Acho que algo está acontecendo.

- Por que diz com isso, Damião? – questionou Roberto.

- Bom... Seu Francisco, Dona Ângela e Dalva devem se lembrar, melhor do que eu, daquela história dos três homens que traíram um quarto amigo por causa de umas terras há uns quarenta anos. – lembrou o peão.

- Eu me lembro disso. – observou Francisco - Ainda era jovem quando a ouvi. Eles criaram uma emboscada pra ele. Acontece que o homem não morreu de imediato.

- Isso mesmo – confirmou Ângela - Eu também me lembro, Chico. Era bem menina. Disseram que ele ficou agonizando durante horas mata adentro.

- E a polícia não conseguiu provar nada contra os outros três. – completou o esposo.

Dalva acrescentou:

- Os mais antigos disseram que uma maldição foi lançada contra eles.

- Foi isso mesmo, Dalva. – disse Ângela.

A empregada continuou:

- Diziam que a mata, vendo o sofrimento daquele homem, resolveu vingar a sua morte.

- E anos mais tarde, os traidores foram morrendo um a um. Todos mortos por uma onça. – completou Francisco.

Cético, Eduardo questionou:

- E vocês acreditam nessa história? Isso deve ter acontecido por algum desequilíbrio ecológico – tentou justificar - E coincidentemente os três foram mortos.

- Verdade ou não, Doutor, um homem foi morto por uma onça. – lembrou Damião.

- Bom... De repente foi coincidência mesmo. – disse Francisco - Seja como for, ainda bem que eu conquistei tudo nessa vida com suor e trabalho. – e volvendo para o frouxo - Você já matou alguém, Toninho?

- Deus me livre, Seu Francisco, nem um passarinho. – respondeu o rapaz assustado, fazendo o sinal da cruz.

Naquele momento, todos riram.


Já era de manhã. E, na sala de jantar do casarão, Francisco, Ângela, a filha Marília e o genro Eduardo tomavam o café da manhã, tranquilamente sentados à grande mesa, farta de comidas típicas da região. Subitamente, Toninho entrou correndo.

- Seu Francisco!!! Seu Francisco!!! – chamava o rapaz desesperado.

- Mas o que aconteceu, ô criatura? – questionou o patrão.

O frouxo tentava pegar fôlego.

- Deixe o rapaz respirar, Chico. – pediu Ângela.

Toninho esforçava-se para falar.

- Encontraram... Encontraram outro corpo... Foi na Fazenda Paraíso... Parece que foi o Seu Andrade.

Ângela espantou-se:

- Oh, meu Deus!!


Nos estábulos da Fazenda Paraíso, a Polícia realizava os procedimentos de costume, tais como: isolar a área, tirar fotos do local do crime e da vítima, inquirir testemunhas etc. O Delegado Sílvio Queiroz – um homem branco e forte, por volta dos cinquenta anos, usando terno -, seu Assistente Euclides – um homem branco e magro, por volta dos trinta e cinco, igualmente vestido – e o Perito Vicente – um homem moreno, baixo e magro, por volta dos quarenta anos, usando um daqueles jalecos brancos e calçando luvas de procedimento – circundavam o corpo de Andrade, que estava no chão. Fora da área isolada, os curiosos assistiam aos trabalhos. Enojado com a cena do crime, um dos policiais levou a mão à boca, afastou-se e vomitou num canto.

- Jesus, alguém ajude esse rapaz! – pediu o Delegado.

O perito continuava a examinar o corpo de Andrade.

- Esse corpo está pior que o anterior, Vicente. – observou Queiroz.

- É. Dessa vez o estrago foi maior, Delegado. Bem maior. - concordou Vicente - É mesmo um felino dos grandes. Pela mordedura diria até que foi um tigre. Veja. - apontou para as feridas.

- Então, é o nosso gato? – perguntou Euclides.

E o perito:

- Com certeza é o mesmo de Ladário.

- É. Parece que o inferno chegou ao paraíso. – observou o Delegado, fazendo um trocadilho com o nome da fazenda do falecido.

- Delegado Queiroz?! – chamou uma voz.

O Delegado volveu para a direção do chamado. Constatou que a voz era de Francisco. O fazendeiro estava acompanhado de seu genro Eduardo, de Damião e de Toninho. Os quatro encontravam-se do lado de fora da área isolada, em meio aos curiosos. Então, Queiroz acenou para o policial, que estava junto ao cordão de isolamento, e autorizou:

- Deixe o Senhor Francisco passar.

Sogro e genro atravessaram o cordão e aproximaram-se do Delegado. Ao que o fazendeiro disse:

- Toninho foi correndo me avisar, Delegado.

- Bom dia, Senhor Francisco!

- Ah, esse é meu genro. – apontou para Eduardo.

Cumprimentaram-se com um aperto de mão. Francisco e Eduardo volveram para o corpo.

- Meu Deus, aquilo é o Andrade? – espantou-se o fazendeiro.

- Ou pelo menos o que sobrou dele. – respondeu o Delegado.

- Nossa Senhora, que estrago! – expressou-se Eduardo.

- O que aconteceu, Delegado? – perguntou Francisco.

- O Senhor Andrade chegou cedo, como de costume, pra cavalgar, mas nem teve tempo de montar. A maldita onça o pegou em cheio. – explicou.

- Santo Deus! Como está a Josefa?

- Lá em cima no casarão, desolada. Os filhos estão tentando consolá-la.

- Ângela e Marília estão vindo pra dar uma assistência a ela.

Naquele momento, fora da área isolada, em meio aos curiosos, Eduardo avistou Caroline. Quando a moça percebeu que fora vista por ele, retirou-se do local. Prontamente, o médico foi atrás da morena. Toda aquela cena foi observada pelos atentos olhares de Damião.

Caroline deixou os estábulos correndo, dando a volta na construção. Eduardo, por sua vez, tentava alcançá-la. Chamou:

- Espere, Caroline! Espere!

A morena recostou-se na parede externa dos estábulos e pôs-se a chorar. O médico aproximou-se.

- Era seu parente, Caroline? – perguntou Eduardo.

A moça meneou a cabeça negativamente.

- Era seu patrão?

Mais uma vez, a moça meneava a cabeça negativamente.

- Estão por que está chorando, Caroline? – insistiu.

- É tudo culpa minha, Eduardo! É tudo culpa minha! – desesperou-se

- Como assim?

- Eu não consegui salvá-lo! Não cheguei a tempo de avisá-lo!

- Avisá-lo do quê?!

E Caroline, enxugando as lágrimas:

- Eu tenho de ir.

Eduardo segurou a moça pelo braço.

- Espera!

Ela tentou se libertar.

- Olha, você não precisa se envolver nisso. – advertiu.

- Você nem me contou o que é. Talvez eu possa te ajudar.

- Não! Você não pode me ajudar! Ninguém pode!

Aquelas palavras eram o tipo de coisa que o médico não suportava ouvir: Você não pode me ajudar! Aliás, como já é do conhecimento de todos os leitores, Eduardo não suportava que duvidassem dele, que dissessem que ele não era capaz ou que não conseguiria. Orgulho tolo.

- Nunca diga que eu não posso, Caroline. – disse ele olhando a moça nos olhos.

- Tudo bem. Mas não podemos conversar aqui.

- Onde então?

- Na estrada mais longa que segue para a Fazenda Santa Helena. Perto da grande árvore, onde nos encontramos enquanto você corria.

- Certo. Estarei lá.

- Me encontre lá em meia hora. Agora preciso ir.

Caroline partiu correndo.


A caminhonete prata de Francisco retornava para Fazenda Santa Helena pela estrada mais longa. Damião estava ao volante; Francisco, no banco do carona; Eduardo e Toninho, no banco de trás.

- Ué, Damião! Por que tá fazendo esse caminho? – questionou Francisco - Sabe que é mais longo.

- É pro Doutor apreciar mais a paisagem, Seu Francisco. – justificou-se.

O peão olhou para Eduardo através do retrovisor. O médico olhou de volta.

- Sabe, Eduardo, essa morte do Andrade parece até que foi castigo. – comentou o sogro.

- Por que o senhor diz isso, Seu Francisco? – questionou o genro.

- Josefa, a esposa do Andrade, e Ângela sempre foram amigas. Nossos filhos cresceram juntos, estudaram no mesmo colégio. Quanto ao Andrade, nunca o considerei um amigo. Nosso tratamento sempre foi aquele que você viu no Bar do Fidelis.

- Ora, e por quê, Seu Francisco?

- Digamos que ele aumentou as suas posses quebrando alguns ovos. Se é que você me entende... Os filhos e a esposa são boa gente, mas ele... Se existe um céu e um inferno, com certeza no céu ele não está. Que Deus tenha piedade de sua alma. - fez o sinal da cruz.

- Entendi.

Damião, olhando novamente para Eduardo através do retrovisor, perguntou:

- O Doutor já pescou antes?

- Não. Nunca, Damião.

- Quem sabe o Doutor e eu possamos pescar qualquer hora dessas?

- Seria ótimo. – respondeu sem ligar muita importância, pois estava mais preocupado em avistar seu ponto de encontro com a morena.

- Então quando eu for, chamo o senhor.

- Combinado, Damião.

Finalmente, Eduardo avistou a grande árvore na estrada de terra, local em que avistara Caroline enquanto corria. Pediu:

- Damião, pode parar o carro, por favor!

- Ora, mas pra quê, Eduardo? – perguntou o sogro.

- Se não se importa, Seu Francisco, gostaria de ir andando daqui. Curtir um pouco a paisagem. Sabe como é. E Toninho oferecido:

- O Doutor quer companhia?

Damião interveio:

- É claro que não, ô Toninho! Não vê que o Doutor quer ficar sozinho.

E o patrão, não desperdiçando a oportunidade:

- Ele aceitaria sua companhia se você fosse alguma mulher bonita. Você mudou de time, Toninho?

- Deixa a Ritinha saber disso, Seu Francisco. – comentou Damião.

- Vocês estão me estranhando? Eu sou frouxo, mas sou homem. – defendeu-se.

Todos riram. Damião parou o veículo. Eduardo desceu. E o sogro:

- Bom, a gente se vê na fazenda, Eduardo. Não vai se perder.

- Pode deixar, Seu Francisco.

Despediu-se com um aceno de mão enquanto a caminhonete prata de Francisco partia. A seguir, Eduardo caminhou até a grande árvore, sentou-se no chão e esperou. Não tardou, Caroline surgiu caminhando em sua direção. Eduardo levantou-se. A morena aproximou-se. Ele a cumprimentou:

- Oi, Caroline!

- Olá!

- Como você está?

- Não muito bem. Mas obrigada por perguntar. - passou sensualmente a mão por entre os cabelos. - Então, você quer saber tudo?

- Me conte.

- Promete não contar pra ninguém?

- Prometo. – e erguendo a mão direita – Palavra de escoteiro.

Caroline esboçou um sorriso, olhou a paisagem, volveu para Eduardo, pareceu hesitante. Por fim, disse:

- Vamos andando.


4


Caminhavam pela propriedade da Fazenda Paraíso, fazia algum tempo. Incrédulo, Eduardo lançou uma pergunta:

- Então, tudo não passa de uma maldição, Caroline?

- Isso mesmo. – confirmou a morena.

- E basta impedirmos que um deles morra pra quebrarmos o encanto?

- E os demais estarão salvos, pois estão todos ligados. – completou.

- Sempre fui um homem racional, Caroline. Fica difícil acreditar que exista uma maldição.

- Olha, não tem de acreditar em mim, Eduardo. Mas já ocorreram duas mortes.

- Por que não contou a polícia? – questionou o médico.

- Já está difícil de você acreditar em mim, que dirá a polícia.

- Tem razão. – pausou e continuou - Sabe, aconteceu algo estranho ontem à noite.

- O quê?

- Meus sogros e dois funcionários da fazenda lembraram uma história semelhante, que ocorrera décadas atrás, sobre uma onça matando homens.

- Está vendo. Isso prova que falo a verdade.

Após silenciar-se por alguns instantes, o médico perguntou:

- Qual o seu envolvimento nisso, Caroline?

E a morena misteriosa:

- Não posso falar com você sobre isso, Eduardo. Não agora.

- Por quê?

- Eu tenho as minhas razões. – pausou e continuou - Olha, basta impedirmos a próxima morte e tudo estará terminado. O problema é que só sei quem será a vítima com poucos minutos de antecedência. – revelou.

- Como assim? Você consegue ver quem vai morrer?

- Não sei explicar. Apenas acontece.

Eduardo continuava intrigado.

- Tudo isso é muito estranho, Caroline. Tem mais alguma coisa que eu deva saber?

- Se eu te contar mais, nós dois corremos perigo. Você não precisa me ajudar se não quiser.

- Eu quero te ajudar.

- Por quê?

- Eu tenho as minhas razões.

Caroline esboçou um sorriso. A seguir, apontou para um vilarejo há alguns metros de distância. Disse:

- Eu moro lá adiante.


A cozinha da casa era um humilde cômodo de uma típica construção do interior. A mobília era bem simples. Caroline despejava o café do bule em dois copos de vidro. Serviu um para Eduardo, que estava sentado a mesa, tomou o outro copo para si e sentou-se também.

- Ótimo café, Caroline! – elogiou Eduardo.

- Obrigada!

- Então... Você mora aqui sozinha? Uma moça bonita como você... Não tem medo?

- Não moro sozinha, não. Moro com a Velha Alzira.

- Velha Alzira?!

- É uma espécie de curandeira daqui. Quase não fica em casa. Sai por aí ajudando as pessoas, fazendo rezas, receitando ervas pros doentes. Ela pegou a gente pra criar depois que perdemos nossos pais.

- “A gente”?!

- Minha irmã e eu. – explicou a morena - Nossos pais morreram quando éramos meninas.

- Sinto muito.

- Não sinta.

- E onde está sua irmã?

- Ela morreu anos depois. Ficou muito doente.

- Nossa! E seus pais, como eles morreram?

E a moça, abaixando a cabeça, pediu:

- Se importa de mudarmos de assunto?

- Tudo bem. – concordou Eduardo – Me desculpe.

Sensualmente, Caroline levantou a cabeça, passou a mão por entre os cabelos. Ela e Eduardo olharam-se por um tempo. Não se contendo, o médico fez um elogio:

- Você é uma morena muito bonita, sabia?

E ela, sorrindo:

- Você está me deixando sem graça.

De repente, o celular de Eduardo começou a tocar. Ele meteu a mão no bolso e, olhando o visor, disse:

- Marília!

Levantou-se e decidiu atender.

- Oi, Marília!... Não se preocupe meu amor... Estou na estrada, a alguns quilômetros da fazenda... Foi só uma caminhada pra espairecer... Não precisa. Fique despreocupada... E como está a família do falecido?... Sei... Sei... Está tudo bem, já estou chegando... Também te amo! Tchau! - desligou o celular.

- Por que mentiu pra sua noiva? – questionou Caroline.

- Como você mesma percebeu, ela é ciumenta. Muito ciumenta. Além do mais, não estamos fazendo nada demais.

- Ainda não. – disse a morena.

Eduardo e Caroline olharam-se fixamente por um tempo. Por fim, ela sugeriu:

- É melhor você ir, Eduardo.

- É. Você tem razão. – concordou.

Caroline levantou-se e abriu a porta. Eduardo parou no limiar e perguntou:

- Como vamos manter contato?

- Não se preocupe, eu encontro você.

- Então, a gente se vê, Caroline.

- A gente se vê, Eduardo.

O médico deixou a casa.


Na sala do casarão, Marília caminhava impaciente de um lado a outro. Sentada numa das poltronas, Ângela fazia tricô e observava a ansiedade da filha. No sofá, Francisco lia o jornal, despreocupado.

- Calma, minha filha. Já, já ele chega. – disse Ângela.

- Como posso ter calma, mamãe? Falei com ele a mais de meia hora. Ele disse que já estava a caminho. Vou ligar de novo. – Marília pegou o celular e teclou.

Naquele instante, Roberto entrou e percebeu a situação.

- O que houve?

- Sua irmã está preocupada com a demora de Eduardo.

Ângela volveu para Francisco.

- Talvez seja melhor ir atrás dele, Chico. Afinal, com essa onça solta por aí.

- O rapaz é da cidade grande, nunca viu tanto mato. Deve estar impressionado. – falou sem desfitar o periódico.

E filha:

- O celular está dando fora de área.

Marília era uma mulher firme e segura de si em muitos aspectos, contudo em relação ao noivo sentia-se insegura, também pudera fora traída em seu relacionamento anterior. A coitadinha sofreu muito. E olha que nem amava tanto o rapaz, mas tencionava casar-se com ele. Custou a se recuperar, mas superou. Agora, com Eduardo era diferente: Marília era loucamente apaixonada pelo doutor. E só Deus sabe o que uma mulher apaixonada e traída é capaz de fazer.

- De repente, ele foi sequestrado por uma tribo de belas amazonas. - disse o irmão em tom de escárnio:

Francisco e Roberto riram. E o pai, sem desfitar o jornal, disse:

- Essa foi boa, meu filho.

- Não teve graça, Roberto. – censurou Marília.

Ângela o repreendeu:

- Roberto! Quer ter um pouco mais de consideração por sua irmã?!

- Sua mãe tem razão, Roberto. – concordou Francisco ainda lendo o periódico.

E o filho arrependido:

- Desculpe, Mari! Não está mais aqui quem falou.

Naquele instante, Eduardo entrou.

- Olha o seu príncipe aí, Mari! – disse o irmão.

Marília foi até o noivo e o abraçou. Disse aliviada:

- Graças a Deus, Eduardo!

Exagerado que só ele, Francisco observou:

- As duas já estavam pensando na sua missa de sétimo dia.

- Não exagera, Chico. – protestou Ângela.

- Eu estou bem. – tranquilizou o médico.

A noiva começou um interrogatório:

- Mas onde você estava, Eduardo? Por que demorou tanto?

Ele tentou acalmá-la:

- Vamos por parte. Primeiro, você se acalma. Segundo, a paisagem aqui no Pantanal é tão bonita que me desliguei da hora. Sabe como é.

- Eu não falei. – lembrou Francisco.

Marília fez um pedido ao noivo:

- Promete nunca mais fazer isso?

E Eduardo, erguendo a mão direita:

- Palavra de escoteiro.

Ela, já fazendo charme:

- Não estou totalmente convencida, Doutor Eduardo.

- O que eu posso fazer pra te convencer, meu amor?

E Roberto, diante da pieguice do casal:

- Se me dão licença, isso já está romântico demais pro meu gosto.

Francisco largou o jornal e levantou-se.

- Eu acompanho você, meu filho.

Roberto e o pai deixaram a sala.

Marília fez um convite ao noivo:

- Vamos dar um passeio a cavalo.

- Seu desejo é uma ordem, minha rainha. – aceitou de pronto.

O casal saiu da sala.

Continuando com o tricô, Ângela meneou a cabeça negativamente. Disse para si em baixo tom:

- Mari, Mari, fique mais atenta, minha filha. Fique mais atenta.


Pelas pastagens da Fazenda Santa Helena, Marília e Eduardo cavalgavam, cada qual em seu cavalo. Ao longe, contrastando com o verde da relva, via-se a alvura do gado bovino da raça Nelore.

- Vamos ver se você é melhor do que eu cavalgando. – disse a moça para o noivo.

- Isso foi um desafio? – questionou o médico.

- E se for?

- Você sabe que eu adoro um desafio.

- Acho que você fala demais.

Com as rédeas, Marília atiçou seu cavalo e adiantou-se. Eduardo imitou-lhe o gesto com o intuito de alcançá-la.

- Até depois daquela cerca! – exclamou a moça.

Os cavalos corriam velozmente pela relva. Marília ia à frente e Eduardo logo a seguir. Contudo, era improvável que o médico alcançasse a doutora, pois a moça tinha muita habilidade sobre a cavalgadura. Súbito. Eduardo perdeu o equilíbrio e caiu da sua montaria. Lá adiante, Marília alcançou a cerca. Quando olhou para trás, a fim de comemorar sua vitória, viu o médico caído no chão. Ela deu meia volta, chegou rapidamente até o noivo e desmontou.

- Eduardo, você está bem?! – perguntou assustada.

- Só bati com as costas no chão. Está doendo um pouco.

- Vamos! Te ajudo a levantar, meu amor!

- Eu acho que não vai dar.

- E por quê não?!

- Eu acho que não sinto as minhas pernas.

- Meu Deus, você está falando sério, Eduardo?! – desesperou-se.

- Claro que não. – o noivo começou a rir.

A médica o repreendeu:

- Seu idiota! Seu sem graça! Me deixou esperando preocupada e agora me dá um susto desses!

Marília batia em Eduardo, que se defendia. Por fim, ele agarrou a noiva e a deitou na grama, segurando-a pelos braços.

- Você fica linda quando está preocupada. – elogiou o médico.

- Me larga, seu idiota! – disse a moça tentando não rir.

Após beijaram-se longamente, sentaram-se na relva.

- Quando você está nervosa, suas sobrancelhas ficam pra cima, sabia? – observou Eduardo.

- Seu ridículo. – disse Marília já sorrindo.

Olharam-se por um tempo. Observaram a paisagem. A seguir, A moça fez uma confissão:

- Eu nunca te falei isso antes, Edu. Mas eu tenho medo de te perder.

E o médico, prontamente:

- Nunca vou deixar você, Marília. Nunca. – prometeu.

- O outro disse a mesma coisa. – falou descreste e mirou a paisagem.

Com uma das mãos, Eduardo virou o rosto da moça para si. Foi veemente:

- Eu não sou como ele, Marília. Não vou te deixar. Nem vou te trair. – reafirmou o que prometera.

Por sua vez, a médica pegou a mão do noivo e a beijou. A seguir, eles se beijaram e se abraçaram.

- Eu te amo tanto, Edu!

- Também te amo, Marília!


Chegara a manhã do dia seguinte. E com ela o enterro do dono da Fazenda Paraíso. No cemitério da cidade, o caixão com o corpo de Andrade, já estava preparado para descer à cova. Padre Mariano – um homem alto e magro, por volta dos sessenta anos –, de pé, de um lado do caixão, recitava um dos salmos da bíblia próprios para aquela ocasião:

- “O Senhor é meu pastor, nada me faltará. Em verdes prados ele me faz repousar. Conduz-me junto às águas refrescantes, restaura as forças de minha alma. Pelos caminhos retos ele me leva, por amor do seu nome. Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estais comigo...”

Do outro lado do féretro, estava a família do falecido - a viúva Josefa de Andrade, que chorava muito, e seu casal de filhos - e demais acompanhantes, a saber: alguns funcionários da Fazenda Paraíso, os Gonçalves de Alencar com Eduardo, o Prefeito com sua família, além de outras pessoas influentes de Corumbá. É claro que os que estavam ali presentes, estavam mais por consideração a família do falecido que por consideração ao próprio defunto. Ângela aproximou-se de Josefa e a abraçou tentando confortá-la. Padre Mariano continuava com o salmo:

- “Vosso bordão e o vosso báculo são o meu amparo. Preparais para mim a mesa à vista de meus inimigos. Derramais o perfume sobre minha cabeça, e transborda minha taça. A vossa bondade e misericórdia hão de seguir-me por todos os dias da minha vida. E habitarei na casa do Senhor por longos dias.”

Marília e Eduardo, de braços dados, observavam a família do falecido. Sensibilizada com aquela cena, a médica, apertando fortemente o braço do noivo, pediu:

- Promete que jamais vai me deixar?

- Eu prometo, Marília. Eu prometo.


Ainda era manhã quando os Gonçalves de Alencar com Eduardo entraram na sala do casarão, retornando do enterro. Ângela lamentou:

- Estou tão triste pela Josefa. Perder o marido assim.

- Só espero que não vire moda. – disse Francisco.

E Roberto:

- O quê, pai?

- Vai que essa onça cisma de matar fazendeiros.

Ângela espantou-se:

- Credo, homem! Vira essa boca pra lá!

- Papai! – exclamou Marília.

E Ângela seguindo para a cozinha, disse:

- Vou pedir pra Dalva passar um cafezinho.

Naquele instante, Damião batia a porta.

- Com licença, Seu Francisco. – disse o peão.

- Sem cerimônias, Damião. Entre, homem. – assentiu o patrão.

Damião entrou. Ao que o fazendeiro perguntou:

- Algum problema logo agora pela manhã, Damião?

E o peão:

- Nada demais, Seu Francisco. É que eu tinha combinado de convidar o Doutor Eduardo pra pescar, mas parece que não é uma boa hora.

- Acho melhor deixarmos pra depois, Damião. – disse o médico, que se justificou - Não quero deixar Marília sozinha.

A noiva interveio:

- Não, meu amor! Está tudo bem, vá se distrair.

- Certeza?

- Absoluta! – assentiu - Eu vou subir, tomar um banho e descansar um pouco. Mais tarde ficamos juntinhos.

- Bom, se você insiste.

Despediram-se com um beijo.

- Ei, Damião, não ensina todos os truques pro meu cunhado. – recomendou o irmão de Marília.

- Pode deixar, Seu Roberto. – respondeu o peão.

Eduardo e Damião saíram.

- Vê se traz um pintado dos grandes, Eduardo. – pediu o sogro ao limiar da porta da sala.

E o genro:

- Pode deixar, Seu Francisco.


5


Num trecho do Rio Paraguai, flutuava um pequeno barco a motor. Nele estavam Eduardo e Damião. Cada qual segurava a sua vara de pescar. Às margens do rio, um tuiuiú parecia estar montando guarda sobre uma das pernas, tendo a outra recolhida. Lá adiante, um grupo de jacarés banhava-se ao Sol. Quebrando o silêncio, o médico perguntou:

- Damião, você trabalha com Seu Francisco há muito tempo?

- Desde garoto, Doutor!

- É casado?

- Vejo alguém de vez em quando. – respondeu misterioso.

- Sei.

À distância, conduzindo outro pequeno barco a motor, passava Zé Barqueiro – um homem alto e forte, por volta dos quarenta anos, de boné vermelho, blusa aberta e grande cordão de prata no pescoço. Enquanto o barco passava, Damião e Zé encararam-se por algum tempo. Percebendo a troca de olhares entre os dois, Eduardo questionou:

- Amigo seu?

- Não sou amigo de covardes, que batem em mulheres. – respondeu veementemente.

Concentraram-se novamente na pescaria. Não tardou, a vara de Eduardo começou a puxar.

- Veja, Damião! Veja! – disse empolgado - Parece que fisguei algo!

- Muito bem, Doutor! Agora tente manter a calma! Puxe firme, mas devagar!

Eduardo enrolava o molinete ao mesmo tempo em que puxava a vara. Na outra extremidade, o peixe se debatia oferecendo resistência. Por fim, venceu o médico. Auxiliado por Damião, Eduardo tirou da água um pintado. Disse entusiasmado:

- Está vendo, Damião! Que peixe enorme!

- Isso é que eu chamo de sorte de principiante. O Doutor pegou um pintado.

Volvendo para a margem, Eduardo viu Caroline. Ele sorriu mostrando o peixe à moça. Ela sorriu de volta.

E o médico, dirigiu-se ao peão:

- Damião, a pescaria está ótima, mas tenho de ir. – informou Eduardo.

- Como assim, Doutor? Mal começamos a pescar.

Por fim, Damião avistou Caroline na margem. Súbito. Segurou o braço de Eduardo. Advertiu:

- Doutor, as mulheres não passam de lobos em pele de cordeiro que se valem da sua beleza e fragilidade para conseguirem o que quiserem dos homens.

- Não é nada disso, Damião. Ela precisa da minha ajuda. – e, alternando o olhar entre o peão e a morena, continuou - Escuta, não conte nada para Marília ou para os meus sogros. Diga que fui dar uma caminhada.

- Não vou tomar parte nisso, Doutor. – discordou o peão - Não está certo. Mas não vou pra casa agora. Então, não terei de mentir.

Eduardo meneou a cabeça positivamente.

- Justo! – fez um último pedido - Pode me levar até a margem?

- É claro!

Damião ligou o motor do barco e deixou Eduardo na margem.

- Obrigado, Damião!

- Por nada, Doutor. – o peão olhou para a mulher com cara de poucos amigos, volveu para Eduardo e lembrou - Pense no que lhe falei, Doutor: “lobos em pele de cordeiro” - manobrou o barco e partiu.

O médico aproximou-se da morena e perguntou:

- Como você está, Caroline?

- Eu estou bem. Obrigada! – e, referindo-se a Damião, observou – Parece que seu amigo não gosta de mim.

- É porque ele não te conhece. – tentou justificar a atitude do peão, a seguir perguntou - Novidades?

- A Velha Alzira disse que a próxima morte vai acontecer num vilarejo perto daqui. Vamos! Não temos muito tempo.


Já era início da tarde. Eduardo e Caroline caminhavam pelo vilarejo indicado pela tal Velha Alzira. O lugar era uma típica comunidade do interior: de construções simples e de pessoas humildes. O chão não possuía calçamento. E os dois únicos comércios eram um pequeno armazém e um bar.

- Tem certeza que é aqui, Caroline? – questionou o médico.

- A Velha nunca se engana. Agora só tenho de descobrir quem é.

Algumas crianças, que brincavam na rua, aproximaram-se do doutor e da morena, deram voltas ao redor do casal e saíram correndo. Uma delas, a menor, caíra no chão e pôs-se chorar. Caroline correu até a menininha, ajudou-a a se levantar, tirando a areia de seu vestidinho branco com as mãos. Tranquilizou-a, dizendo:

- Está tudo bem. Já passou. – e perguntou - Qual é o seu nome?

- Alicinha – disse a menininha.

- É um bonito nome.

A pequena Alice era branquinha e aparentava ter por volta dos quatro anos. Tinha um rostinho redondo, emoldurado por longos cabelos negros. A menina mostrou o bracinho a Caroline e, com os olhinhos marejados, disse:

- Está doendo.

Prontamente, a morena deu um beijo no bracinho da menininha e concluiu:

- Está tudo bem, Alicinha. Agora vá brincar!

Alicinha partiu correndo na direção das outras crianças.

- Você daria uma ótima mãe, Caroline. – observou Eduardo.

A moça sorriu. Olhou para baixo. Ao levantar a cabeça, seu semblante tornou-se sério. O médico olhou para a mesma direção. Viram Bira – um homem magro, com chapéu de palha, por volta dos cinquenta anos - caminhando. Eduardo fez uma interrogativa:

- É ele?

A moça meneou a cabeça positivamente. E Eduardo:

- Vamos!

Abordaram Bira.

- Boa tarde! – cumprimentou o médico - Podemos falar com o senhor?

E o tal Bira:

- Por acaso eu os conheço?

- Não, senhor. Mas é muito importante que nos dê alguns minutos de sua atenção. – explicou Eduardo.

- Vão falando! – disse o homem, com cara de poucos amigos.

Seguiram caminhando.

- O que merece alguns minutos da minha atenção? – perguntou Bira.

Eduardo respondeu:

- É sobre as duas mortes causadas pela onça.

O homem estacou.

- O que têm elas?

- Achamos que de alguma forma elas estão ligadas. – pausou e continuou - E também acreditamos que o senhor pode ser o próximo a ser morto. – esclareceu Eduardo.

- Mas que brincadeira de mau gosto é essa? – irritou-se o homem.

- Não é brincadeira, senhor. – interveio Caroline.

- E por que eu deveria acreditar em vocês? – questionou – Se quer os conheço. Aliás, eu nem conhecia os homens que morreram.

- Eu sei que é estranho, mas tem de acreditar na gente, senhor. – insistiu o médico.

- Se eu lhes contasse uma história dessas, vocês acreditariam em mim?

- Com certeza não. – concordou Eduardo.

- Mas ao menos nos deixe explicar, senhor. – insistia Caroline.

Bira decidiu por um fim àquela prosa.

- É certo que o Pantanal tem os seus mistérios e lendas, mas eu nunca acreditei nessas coisas. Vocês são um casal bem maluco, sabiam? Agora me deixem em paz! – ordenou.

Bira entrou no Bar do Zeca. O estabelecimento era bem simples. Dois clientes bebiam sentados a uma das mesas, enquanto jogavam cartas.

- Olha quem chegou?! – disse Zeca.

O homem fez um pedido:

- Zeca, bota uma pra mim.

- Ora, ora, até que enfim. – disse um dos clientes.

- Puxa uma cadeira, Bira. Vamos jogar um pouco. – falou o outro.

Bira sentou-se, tirou o chapéu de palha. Zeca aproximou-se e colocou um copo de cachaça e uma garrafa sobre a mesa. Bira pegou o copo, olhou para Eduardo e Caroline lá fora. Enquanto o cliente número um embaralhava as cartas, o outro interrogou:

- Mas o que foi, homem?

Bira respondeu:

- Nada de mais. - entornou a bebida goela abaixo.

O cliente número um já distribuía as cartas sobre a mesa, quando o dono do bar comentou:

- Ô Bira, hoje cedo foi o enterro daquele seu antigo patrão, o Seu Andrade.

- É. Eu soube. – confirmou - Ele teve o que merecia. Agora vamos ao que interessa. – e Bira pegou a sua mão de cartas.

Lá fora, de frente para o bar, o casal estava de pé no meio da rua.

- E o que fazemos agora, Eduardo? – perguntou a morena.

- Esperamos. – resignou-se.

- Só isso?

- O que quer que eu faça, Caroline? É uma história difícil de acreditar.

- Então você não acredita em mim, não é?

- Eu ainda não sei, Caroline. Eu ainda não sei.

A morena meneou a cabeça positivamente. Eduardo sugeriu:

- Olha, vamos ficar de olho nele. É tudo o que podemos fazer. Quando a onça aparecer, se aparecer, nós tentamos avisá-lo. Agora vamos torcer para que ele se mantenha sóbrio.

Sentaram-se num banco de madeira que ficava debaixo de uma árvore. Enquanto Eduardo alternava o olhar entre o bar e os arredores, Caroline fez uma interrogativa:

- Você já atirou em alguém?

- Sou médico, Caroline. Eu tento salvar as pessoas, não matá-las.

- Não foi isso que eu quis dizer. Quis perguntar se já atirou antes.

- É claro! A última vez foi há uns três dias. Atirei em latas.

- E quando começou a praticar?

- Há uns três dias.

A moça sorriu. Súbito. Eduardo levantou-se, mirou um arbusto, que se movia no outro lado da rua. Caroline olhava para a mesma direção. Alicinha, a menininha que Caroline ajudara a se levantar, instantes antes dela e Eduardo terem com Bira, parou em frente ao arbusto. Um menino, mais velho, saiu de trás do arbusto e pulou em frente à pequena Alice, que se assustou e saiu correndo dando aquela gargalhada típica de criança.

- São só as crianças. – tranquilizou a morena.

O médico sentou-se novamente e continuou a olhar para o bar. Caroline fez uma observação:

- Você fica tão sério quando está concentrado. Eu gosto.

Eduardo olhou sorrindo para Caroline, que sensualmente passava a mão por entre os cabelos. Ele tornou a olhar para o bar. A seguir a morena lançou outra interrogativa:

- E então, qual é a sua história?

- História?

- Sua dor, sua frustração. Todo mundo tem uma.

- Eu perdi alguém. – respondeu prontamente.

- Foi antes da sua noiva?

O médico olhava ao redor. Volveu para Caroline e disse:

- Não. Era uma paciente.

- Quer falar a respeito?

- E por que eu deveria?

- Porque faz bem desabafar. E porque eu quero te ouvir. – justificou-se.

Eduardo desviou seu olhar da morena. Respirou fundo. Decidiu-se:

- Pois bem. Foi há seis meses.


Seis meses atrás...


Era noite. E na emergência do hospital, Eduardo, Marília e mais dois médicos realizavam os procedimentos em uma paciente - jovem morena, de cabelos negros, por volta dos vinte anos -, que sangrava deitada numa maca.

- Temos de conter essa hemorragia! Precisamos de sangue aqui! E rápido! – observou Eduardo.

Marília informou:

- Os sinais vitais dela estão caindo! Ela vai entrar em choque!

O médico número um disse:

- Vamos precisar do desfibrilador.

Subitamente, a paciente segurou a mão de Eduardo e, olhando para ele, movimentava tremulamente a sua boca tencionando dizer algo. O rapaz aproximou-se do rosto da moça, que sussurrou ao seu ouvido. A seguir, ele ergueu a cabeça e disse:

- Você não vai morrer! – e olhando para a noiva - Vamos rápido com isso, Marília!

- Eduardo, estou tentando, mas estamos perdendo ela! – lembrou.

O monitor cardíaco mostrava uma linha contínua.

- Desfibriladooor!! – ordenou Eduardo.

O médico número dois aproximou o desfibrilador e o ligou. Disse:

- Vai! Vai!

Eduardo pegou as pás do aparelho, posicionou-as no peito da paciente e aplicou a descarga. A equipe médica olhava para o monitor cardíaco.

- Nada! – disse Marília.

Eduardo ordenou:

- De novo! – e aplicou a descarga.

O médico um disse:

- Nada ainda!

O noivo de Marília ordenou novamente:

- Mais uma vez!

- Nós a perdemos, Eduardo! – informou Marília.

- Não, não! Carrega! Afasta! – disse o rapaz, que aplicou outra descarga.

O monitor cardíaco ainda mostrava uma linha contínua. Eduardo continuava:

- Carrega! Afasta! – aplicou a descarga mais uma vez.

O médico dois observou:

- Eduardo, ela se foi!

- Mais uma vez! – ordenou Doutor Eduardo inconformado.

Parecia inútil, mas ele continuava tentando. Naquele instante, Marília desligou o desfibrilador e ordenou:

- Chega, Eduardo! Acabou! Deixe-a descansar!

Eduardo olhou para a equipe médica, meneou a cabeça positivamente, largou as pás do aparelho e saiu. Marília volveu para médico um e perguntou:

- Você pode continuar daqui?

- Pode deixar, Marília.

A moça foi atrás do noivo. E o médico um, após olhar para o relógio de ponteiros na parede, volveu para o médico dois e disse:

- Bem, a hora da morte foi às vinte horas e cinquenta e cinco minutos.

Minutos depois, na sala dos médicos, Eduardo estava em frente à janela tomando um café. Enquanto observava o movimento lá fora, Marília entrou.

- O que houve com você, Eduardo? – perguntou.

O médico virou-se, sentou-se, pôs a xícara de café sobre a mesa.

- Vinte anos, Marília... Ela só tinha vinte anos...

A médica puxou uma cadeira, sentou-se em frente ao noivo.

- O que ela te disse, Eduardo?

- Disse que amava muito o namorado e esperava um filho dele. – pausou e continuou - E pediu, por favor, pra que não a deixasse morrer.

Ele reclinou-se pra frente baixando a cabeça. Marília levantou-se, aproximou-se do noivo e acariciou a sua cabeça. Eduardo abraçou-a fortemente pela cintura e pôs-se a chorar.


De volta ao vilarejo...


Eduardo e Caroline continuavam sentados embaixo da árvore. Terminada a história, o casal ficou mudo por um tempo.

Sempre fora um homem racional. Logo, era difícil para Eduardo acreditar que uma onça estava matando homens por vingança. A explicação dada por Caroline - de que as vítimas estavam ligadas, pois tinha cometido algo terrível contra pessoas inocentes - era muito vaga, ademais a morena não revelou seu real envolvimento naquilo, contudo o médico não hesitou em socorrer a moça. Talvez por ver nela a chance de redimir-se, de perdoar-se por não ter conseguido salvar aquela jovem morena naquela emergência de hospital. Foi doloroso pra ele lembrar-se daquele fatídico dia.

- Eu nunca tinha perdido uma paciente, Caroline. – lamentou - Mas tem sempre uma primeira vez. Ela era parecida com você. – pausou e continuou - Depois disso não consigo mais entrar numa sala de cirurgia, nem emergência, nem nada. – desabafou.

- Eu sinto muito.

- Não sinta. Vou ter de superar isso mais cedo ou mais tarde. – resignou-se.

Caroline, tentando confortá-lo, segurava e acariciava a mão de Eduardo. Olharam-se por um tempo. A seguir, ela acariciou o rosto dele. Subitamente, aquele momento era interrompido pelos gritos de Zeca, o dono do bar:

- Onça!!! Onça!!!

O médico e a morena volveram para o Bar do Zeca. O dono do estabelecimento e os dois clientes, que lá estavam, saíram correndo e invadiram a rua gritando. Bira ficara para trás. E, do lado de fora, era possível ouvir os seus gritos desesperados ecoando lá dentro do estabelecimento, acompanhados pelos assustadores rugidos de onça.

- Socooorro!!! Socooorro!!! Aaah!!!

Bira silenciou-se e a onça também. Os olhares fixaram-se para o Bar do Zeca, de onde saiu a grande onça-pintada. O animal era enorme. Sua pele amarelada com pintas pretas era um misto de beleza e maldade. A fera olhava ao redor e rugia. O medo foi instaurado. Os moradores se agitaram. Correriam para todas as direções: uns entraram em seus lares; outros, no pequeno armazém do vilarejo; e outros ainda subiam nas árvores e telhados. Eduardo e Caroline, de mãos dadas, corriam em meio aos moradores, que tentavam se proteger. A onça seguia causando terror. Em meio a todo aquele caos, esqueceram a indefesa Alicinha no meio da rua. A grande onça avançava em direção a menininha que, chorando apavorada, dizia: Mamãe!! Mamãe!! Diante daquela cena surgiu uma mulher que bradou Minha filha, Alicinha!!! Dito isso, fugiram-lhe as força das pernas e ela caiu sentada no chão. O animal já estava a poucos metros de distância da criança. Foi quando Eduardo deixou Caroline em segurança num canto, junto a um grupo de moradores, e rapidamente arremessou-se na direção da pequena Alice tirando-a da rota da fera. Eis que surgiu um morador que, empunhando sua espingarda, atirou várias vezes na direção do animal. Em vão. Nenhum dos disparos acertou a onça, mas foi o suficiente para assustar a fera que escapou seguindo na direção do mato. Lentamente, os moradores surgiam na rua.

- Minha filhinha! Minha filhinha! – gritava a mãe de Alice.

Com a pequenina nos braços, o médico foi ao encontro da mãe da criança. A mulher após tomar a filha nos braços prontamente agradeceu e partiu. Caroline aproximou-se de Eduardo e abraçou-o. O casal olhava ao redor. Mulheres e crianças choravam; alguns moradores acudiam uma senhora idosa que chorava sentada no meio da rua. O cliente número um, que escapara do bar, disse:

- Vocês viram o tamanho daquela onça?

O morador que atirara no animal, ainda com a espingarda em punho, perguntou:

- Estão todos bem?

O cliente número dois questionou:

- Cadê o Bira?

- Acho que ele não teve a nossa sorte. – respondeu Zeca.

Os moradores seguiram para o bar. O estabelecimento estava todo revirado. O dono do bar, o cliente um e o cliente dois entraram primeiro.

- Bira?! Bira?! Ah, não!! Bira!! – lamentou Zeca.

- Meu Deus!!! – espantou-se o cliente um.

- Mãe de Jesus!!! – surpreendeu-se o cliente dois.

Os moradores se acotovelavam na entrada tencionando ver o corpo. Eduardo e Caroline conseguiram entrar. Viram o corpo de Bira, ou o que sobrou dele, no chão. A cena era horrível. A moça desviou o rosto.

- Vamos, Caroline! Você não precisa ver isso. – disse Eduardo.

O médico e a morena partiram.


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